SANTO DOMINGO – Em maio de 1989, o governo dominicano suspendeu o pagamento de US$ 23 milhões a bancos estrangeiros por falta de fundos. Em agosto, suspendeu outros US$ 12 milhões e, em setembro do mesmo ano, o Banco Central foi obrigado a suspender todos os pagamentos de dívidas a bancos comerciais internacionais.
O valor era de 800 milhões de dólares americanos, e o país ficou em situação de insolvência, perdendo o acesso a todo crédito externo. Tudo isso enquanto o programa de obras públicas mais caro da história da República Dominicana ainda estava em andamento.
O sociólogo Leopoldo Artiles Gil documentou esse processo no capítulo que dedicou aos dez anos de Balaguer no Volume VI da História Geral do Povo Dominicano, publicado pela Academia Dominicana de História em 2018. Foi como um efeito dominó.
O dólar, que em agosto de 1986 era cotado a RD$2,70, atingiu RD$4,75 em julho de 1987, RD$6,35 em agosto de 1988 e RD$8,40 em dezembro de 1989. Em abril de 1990, estava cotado a RD$11 por dólar.
A inflação, que o Banco Central estimou em 39% para 1988, número questionado pelo economista Andrés Dauhajre, que a fixou em 60%, atingiu 100% no final de 1990. As reservas de petróleo estavam esgotadas: das 19 usinas de geração de energia elétrica existentes, 12 pararam de produzir naquele ano devido à falta de combustível ou a avarias, e a população recebia de duas a quatro horas de eletricidade por dia.
Como o programa de obras foi financiado
A explicação para o fato de um governo sem reservas cambiais ter conseguido sustentar o programa de obras públicas mais ambicioso do país por quatro anos reside na política monetária. Artiles Gil explica:
- Balaguer recorreu à emissão de moeda sem lastro para financiar o programa.
- Ele restringiu o crédito ao setor privado para expandi-lo ao setor público.
- Ele impôs um sistema de taxas de câmbio múltiplas que lhe permitia comprar moeda estrangeira dos exportadores abaixo do preço de mercado, a RD$3,50 quando o dólar livre era cotado a RD$4,75, e depois distribuí-la a seu critério aos importadores e empresários aliados.
Essa forma de clientelismo patrimonial alimentou a espiral inflacionária e desestimulou as exportações, que passaram a subvalorizar suas vendas para ocultar divisas do Banco Central.
O ex-secretário técnico Leopoldo Espaillat Nanita descreveu o mecanismo na revista Ahora em 2001, conforme citado por Artiles Gil: a pressão da falta de moeda estrangeira para cobrir o elevado componente importado do plano de investimento “determinou um processo de desvalorização do peso e uma inflação crescente que desestabilizou toda a estrutura de preços da economia”.
Ele acrescentou que a política de contratos abertos para absorver os efeitos da inflação nos custos de construção "permitiu todo tipo de manobra corrupta com contratos de construção estatais, ao romper os parâmetros da fiscalização econômica".
Pacto de Solidariedade e o FMI novamente

Em agosto de 1990, com uma greve geral iminente e a economia à beira do colapso, Balaguer assinou o Pacto de Solidariedade Econômica com o setor empresarial. O acordo, do qual os setores populares foram excluídos, estabeleceu compromissos com o controle de preços, reforma tributária, taxa de câmbio única e redução do déficit público.
Sua implementação foi parcial. O que ela produziu, a longo prazo, foi a estrutura para o primeiro acordo de crédito stand-by com o Fundo Monetário Internacional, assinado em julho de 1991.
Balaguer criticou o FMI durante toda a sua campanha de 1986 e culpou suas políticas pelos problemas do país. Artiles Gil documenta a reunião de 16 de outubro de 1990, na qual o economista Carlos Despradel propôs a liberalização da taxa de câmbio e a negociação com o Fundo.
Segundo o próprio Despradel, a reação de Balaguer foi levantar-se furioso, apontar o dedo para ele e dizer que ele era o responsável pela situação do país, pois havia sido o arquiteto dos acordos com o FMI durante o governo de Jorge Blanco.
A negociação com o Fundo, com a Igreja Católica como mediadora indispensável, por meio de Monsenhor Agripino Núñez Collado, levou mais alguns meses.
Efeitos do acordo sobre a habitação

O acordo de julho de 1991 proibiu a emissão de moeda sem lastro, estabeleceu uma reforma tributária, eliminou a dupla tributação e removeu as barreiras às importações.
O efeito imediato foi a estabilização da moeda e o restabelecimento do acesso ao crédito internacional. Como efeito colateral inesperado, a eliminação da comissão cambial sobre as importações fez com que a receita alfandegária do governo quintuplicasse, como observa Artiles Gil, citando o economista Carlos Despradel. A economia cresceu 8% em 1992.
Esse crescimento ocorreu bem a tempo das comemorações oficiais do Quinto Centenário e abriu caminho para um modelo econômico que mudaria a natureza do investimento.
O turismo, que viu a construção de 13.654 novos quartos de hotel na década de 1980, multiplicou esse número por 2,5 na década de 1990: 32.873 novos quartos. As zonas francas passaram de exportações de US$ 1,194 bilhão em 1992 para US$ 4,1 bilhões em 1998, com uma taxa de crescimento anual de 23%, segundo o economista Despradel, citado por Artiles Gil.
A habitação social, que havia sido o foco dos gastos públicos em construção durante o período de 1986 a 1990, cedeu lugar ao turismo e às zonas de livre comércio como forças motrizes do modelo.
O Centro Dominicano de Estudos Educacionais (CEDEE) já havia alertado em seu Boletim nº 5 de 1991 sobre quais setores se beneficiariam com a mudança econômica: zonas francas, turismo e agroindústria.
Para os bairros operários que haviam sido demolidos em nome do programa de renovação urbana, o novo modelo não representava uma promessa diferente.
Fontes: Artiles Gil, Leopoldo. Os dez anos de governo do Dr. Joaquín Balaguer, 1986-1996. In: História Geral do Povo Dominicano, Volume VI. Academia Dominicana de História, 2018. | CEDEE, Boletim nº 5, Santo Domingo, 1991. In: Navarro García, Andrés. Bairros em apuros. UNAM, 2014. | Navarro García, Andrés. Bairros em apuros. UNAM, 2014.
Série: História da habitação social na República Dominicana. (Capítulo XXIII)
Leituras recomendadas:



