Entre a queda do regime e a ascensão de Balaguer ao poder, a República Dominicana tentou construir uma política habitacional do zero, e o ponto de partida foi devastado
SANTO DOMINGO – Após o assassinato do tirano Rafael Leónidas Trujillo em 30 de maio de 1961, a República Dominicana herdou, além de um sistema político em crise, uma capital transformada por três décadas de intervenções urbanas, diversos bairros construídos pelo Estado e uma estrutura institucional que ainda tentava responder, embora de forma limitada, aos problemas habitacionais de uma população crescente.
A ditadura deixou uma rede de projetos habitacionais concentrados em Ciudad Trujillo, incluindo os Barrios de Mejoramiento Social, María Auxiliadora, o Ensanche Luperón e outros empreendimentos promovidos pelo Estado.
No entanto, essa experiência estava longe de constituir uma política nacional capaz de resolver o déficit habitacional acumulado ao longo de décadas, e a arquiteta e pesquisadora Natalia Ulloa Cáceres identifica esses projetos como os antecedentes da habitação social dominicana.
Em seu estudo de 2017 sobre a evolução da habitação social em Santo Domingo, ele argumenta que os programas implementados durante o regime franquista refletiam uma visão paternalista da ação estatal, visando proporcionar estabilidade a certos setores da população urbana e, ao mesmo tempo, reforçar o papel do governo como provedor de bem-estar social.
A
queda do regime inaugurou um período de reorganização institucional que culminou, em julho de 1961, na promulgação da Lei nº 5574, que transformou a Companhia de Seguros, Auxílio e Habitação, conhecida como SAVICA, no Instituto de Auxílio e Habitação (INAVI).
A nova entidade assumiu funções de melhoria social e assistência habitacional em um contexto marcado pela incerteza política e pela necessidade de reformar as estruturas herdadas do regime.
Em 10 de maio de 1962, por meio da Lei nº 5892, o Instituto Nacional de Habitação (INVI) foi reorganizado, concebido como um órgão autônomo, com o objetivo de contribuir para a solução do problema habitacional por meio da construção de moradias sociais.
Embora o nome já existisse desde a fase final da ditadura, a reforma promovida pelo Conselho de Estado procurou dar à instituição uma estrutura mais definida e uma missão explicitamente orientada para a habitação popular.
Naquele mesmo mês, a Lei nº 5894 criou o Banco Nacional de Habitação (BNV), peça fundamental para o desenvolvimento subsequente do financiamento imobiliário no país. A criação do banco respondeu a uma realidade amplamente reconhecida por urbanistas e especialistas: a construção de moradias não poderia ser sustentada apenas por meio de iniciativas diretas do Estado.
Era necessário desenvolver mecanismos financeiros que permitissem um acesso mais amplo ao crédito e estimulassem a produção habitacional.
Apesar dessas mudanças, as limitações do modelo existente eram evidentes. A pesquisa de Marcos Prados Martín mostra que as políticas habitacionais de 1930 a 1961 estiveram intimamente ligadas à transformação urbana da capital.
A construção de moradias fazia parte de um projeto de modernização autoritário mais amplo que buscava substituir assentamentos precários, promover o uso de materiais permanentes e consolidar uma base social composta por trabalhadores urbanos e pequenos proprietários de terras.
Esse modelo produziu resultados visíveis em certos setores da cidade, mas não conseguiu resolver as necessidades habitacionais de uma população que continuava a crescer, nem gerou uma cobertura nacional comparável à implementada na capital.
Com o início da década de 1960, o desafio não era mais simplesmente construir casas, mas sim conceber instituições capazes de responder a uma demanda cada vez maior.
A Constituição de 1963, sob o breve governo de Juan Bosch, refletiu essa mudança de perspectiva com uma das formulações mais ambiciosas da história constitucional dominicana em relação à habitação.
O Artigo 26 declarou que o estabelecimento de cada família dominicana em seu próprio terreno e com suas próprias benfeitorias era de alto interesse público e estipulou que toda família deveria possuir uma casa confortável e higiênica. Quando os recursos de uma família fossem insuficientes, o Estado assumia a obrigação de fornecer moradia com a cooperação dos beneficiários e de acordo com sua renda.
O artigo 27 completou essa proteção ao declarar a casa familiar e o fundo familiar inalienáveis e inapreensíveis, garantindo que a habitação destinada à unidade familiar não pudesse ser vendida ou confiscada por dívidas.

A disposição inseriu a habitação no quadro dos direitos sociais e a elevou ao status de compromisso de Estado.
A importância dessa formulação reside no fato de que a habitação deixou de ser vista apenas como um projeto promovido pelos governos no poder e passou a ser uma aspiração reconhecida pela ordem constitucional.
No entanto, a lacuna entre o princípio legal e a realidade material permaneceu considerável. O governo de Juan Bosch tentou aprofundar algumas das reformas iniciadas durante o período de transição, mas sua deposição em setembro de 1963 interrompeu o processo.
Dois anos depois, a Guerra de Abril de 1965 e a subsequente intervenção militar dos EUA acrescentaram novos fatores de instabilidade a uma cidade que continuou a expandir-se, tanto em território como em população.
Ulloa documenta que, mesmo durante esses anos, continuaram a ser construídos projetos residenciais inspirados em modelos desenvolvidos no período anterior. Em Villa Duarte, por exemplo, surgiu um conjunto habitacional de casas unifamiliares cuja organização espacial lembrava os esquemas utilizados nos primeiros bairros promovidos pelo Estado durante a ditadura.
As novas autoridades herdaram instituições, técnicas de construção e conceitos de planejamento urbano desenvolvidos durante os trinta anos anteriores.
Os governos mudaram, as leis mudaram e os discursos políticos mudaram, mas grande parte da estrutura habitacional do país continuou a se basear em fundamentos construídos durante o regime de Trujillo.
Natalia Ulloa resume essa trajetória apontando que a produção e a distribuição de moradias pelo Estado dominicano estiveram historicamente ligadas a estratégias políticas, além de objetivos sociais.
Essa observação ajuda a compreender uma das constantes mais persistentes na história urbana dominicana: a habitação não tem sido apenas uma resposta a uma necessidade material, mas também uma ferramenta para a construção de poder, legitimidade e organização social.
Entre 1961 e 1966, a República Dominicana tentou construir novas instituições democráticas enquanto enfrentava profundas tensões políticas. Em termos de habitação, esses anos representaram menos uma ruptura do que uma transição.
O país começava a se afastar do modelo criado pela ditadura, mas ainda dependia de muitas de suas estruturas. A verdadeira expansão da habitação social dominicana só ocorreria nas décadas seguintes.
Série: História da habitação social na República Dominicana. (Capítulo V)
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