Ao longo dos anos, como construtor e consultor imobiliário, percebi uma realidade raramente discutida abertamente: as expectativas dos compradores mudam radicalmente dependendo do segmento de mercado do imóvel. E não me refiro apenas ao preço, mas também à qualidade percebida, ao nível de detalhamento esperado e à tolerância a defeitos de construção.
Em um empreendimento de luxo ou de alto padrão, o comprador normalmente chega com expectativas extremamente elevadas. E, honestamente, isso faz sentido. Quando alguém paga quantias significativas por um apartamento, não está comprando apenas metros quadrados; está comprando exclusividade, precisão, conforto e uma experiência.
Nesses tipos de projetos, detalhes que poderiam passar despercebidos em outros setores tornam-se observações críticas. Uma junta ligeiramente desalinhada, uma peça de mármore com uma pequena diferença de cor, uma porta que não fecha perfeitamente ou uma iluminação mal distribuída podem gerar rejeição imediata.
O cliente de alto padrão costuma ser muito mais sensível ao acabamento visual e ao nível de perfeição.
Em projetos voltados para a classe média, acontece algo diferente. Aqui, o comprador tende a ter um equilíbrio mais racional entre qualidade, funcionalidade e capacidade financeira. Há exigências, claro, mas geralmente elas se concentram mais no bom funcionamento de tudo e na estabilidade financeira que o imóvel representa.
A classe média geralmente tolera pequenos detalhes estéticos se perceber que a estrutura, a distribuição e os sistemas principais estão funcionando adequadamente.
E existe ainda um fator adicional que influencia bastante a forma como um imóvel é recebido: a cultura e o nível de escolaridade do comprador.
Isso não significa necessariamente que um comprador menos informado seja menos exigente, mas sim que muitas vezes ele não consegue identificar deficiências que, tecnicamente, representam problemas significativos.
A falta de conhecimento técnico do cliente nunca deve ser usada como justificativa para reduzir os padrões de qualidade ou para trabalhos de acabamento deficientes.
Em projetos de habitação popular, a realidade muda consideravelmente. Em muitos casos, o comprador prioriza o acesso à moradia em detrimento dos acabamentos. A necessidade de possuir uma casa acaba por ofuscar, em parte, o nível de exigências técnicas ou estéticas.
E é aí que surge uma situação delicada: o mercado acaba normalizando as deficiências de construção sob o argumento do preço.
Muitas vezes ouço frases como: "Isso é ótimo para moradias populares". Pessoalmente, acho essa abordagem perigosa. Porque, embora existam diferenças naturais entre os segmentos imobiliários, a qualidade técnica básica não deveria depender do nível econômico, cultural ou educacional do comprador.
Segurança, funcionalidade, qualidade e durabilidade não devem ser privilégios reservados exclusivamente a projetos de luxo.
A verdadeira diferença entre os segmentos deve residir principalmente no nível de acabamentos, comodidades, localização ou exclusividade, e não na qualidade essencial da construção.
No final das contas, independentemente do custo do imóvel, todos os compradores buscam a mesma coisa: paz, segurança e dignidade no espaço onde irão viver.
E essa deve continuar sendo a principal responsabilidade daqueles de nós que projetam, constroem e supervisionam edifícios.
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