Os bairros de melhoria social da década de 1940 não eram apenas habitações: eram infraestrutura política, e quando Balaguer chegou ao poder em 1966, a lógica de construir para controlar não só permaneceu intacta, como se tornaria a base de sua própria política habitacional
SANTO DOMINGO – Quando Joaquín Balaguer assumiu o poder em 1966, Santo Domingo era uma cidade sobrecarregada por quase quatro décadas de promessas não cumpridas e uma dívida urbana que nenhum governo de transição se dispôs a resolver. A cidade que ele herdou não era a mesma que Trujillo havia imaginado: era uma capital fragmentada, assolada pela migração interna e marcada pela memória recente da Guerra de Abril de 1965.
O regime de Trujillo estabeleceu as tipologias, as primeiras instituições e, sobretudo, a lógica clientelista que regeria a política habitacional por décadas, e os primeiros programas reconhecíveis como habitação social na República Dominicana datam da década de 1940, quando o regime construiu os chamados Bairros de Melhoramento Social.
O primeiro deles, o Barrio Mejoramiento Social, conhecido como BAMESO, foi projetado pelo arquiteto Henry Gazol e inaugurado em 1940. Seguiu-se o Barrio Obrero em 1944 e o Barrio María Auxiliadora em 1945, que também contava com um hospital, uma escola e uma escola de artes manuais.
Essas primeiras unidades eram modestas casas unifamiliares: sala de estar, sala de jantar, dois quartos e um banheiro, construídas com materiais simples, mas que representavam, como documentado pela pesquisadora Natalia Ulloa Cáceres em sua tese de doutorado sobre habitação social em Santo Domingo, um salto importante em comparação com a habitação popular predominante na época.

O que o regime apresentava como política social era, na realidade, um mecanismo de controle, segundo o historiador Marcos Prados Martín, do Instituto de História do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), órgão público espanhol vinculado ao Ministério da Ciência, Inovação e Universidades. Em seu estudo sobre a modernização autoritária em Ciudad Trujillo, Prados Martín documentou que a habitação social foi concebida como infraestrutura econômica, com o objetivo de sustentar as indústrias sob o controle do ditador Trujillo e influenciar o processo de distribuição de moradias.
As listas de beneficiários incluíam recomendações pessoais de altos funcionários e parentes do regime. Uma carta de uma mulher solicitando moradia, preservada no Arquivo Geral da Nação, oferece a imagem mais clara dessa lógica: a peticionária implora à esposa do ditador que interceda em seu favor, apelando para a maternidade compartilhada como argumento.
Segundo Prados Martín, a arquitetura também servia à narrativa. O concreto era o material emblemático da reconstrução de Santo Domingo após o furacão de San Zenón, em 1930, e o regime proibiu o uso de madeira e zinco na capital, associando esses materiais à arquitetura boêmia, que a ditadura, por sua vez, identificava com a herança haitiana e a suposta degeneração racial da população rural.
A proibição do boêmio no perímetro urbano não foi apenas uma decisão técnica, mas um ato de política cultural: apagou a arquitetura dos pobres da paisagem da capital e obrigou os migrantes internos a se adaptarem a modos de vida que o Estado considerava modernos e ordeiros.
Quando Trujillo foi assassinado em 1961, o país entrou em uma fase de transição que durou até a Guerra Civil de 1965. Esses quatro anos foram, em termos de habitação, um período de paralisia institucional e agravamento do problema.
Prados argumenta que a queda do regime liberou terras que pertenciam à família Trujillo e passaram para as mãos do Estado, mas essa liberação também facilitou a ocupação ilegal de terrenos onde surgiram novos assentamentos informais.
A margem oeste do rio Ozama, por exemplo, começou a ser irreversivelmente povoada durante esse período: La Ciénaga, La Zurza, Guachupita e Los Guandules começaram a se consolidar como os bairros marginalizados mais densos da capital.

Em matéria institucional, o governo de Juan Bosch, que teve início em 1963, fortaleceu o Banco Nacional de Habitação, criado pelo Conselho de Estado através da Lei 5894 de maio de 1962, e abriu a possibilidade real de financiamento hipotecário a longo prazo. A Constituição daquele mesmo ano foi a primeira na história dominicana a reconhecer o direito de cada família à casa própria, consagrando-o no Artigo 26 como matéria de interesse público.
Mas o governo de Bosch durou apenas sete meses e o que se seguiu foi uma combinação de crise política, intervenção estrangeira e guerra civil que paralisou completamente o setor imobiliário.
No início de 1966, Santo Domingo tinha uma área aproximada de treze quilômetros quadrados e uma população que crescia a um ritmo que nenhum programa habitacional conseguia absorver.
As migrações internas nas décadas de sessenta e setenta, resultantes do desequilíbrio regional nos investimentos públicos e da concentração da atividade econômica na capital, alimentaram um déficit que se acumulou sem resposta.
E foi nessa cidade, com esse patrimônio, que Balaguer construiu sua política de vergalhões e cimento.
Série: História da habitação social na República Dominicana. (Capítulo VI).
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