SANTO DOMINGO – A arquitetura dominicana perdeu uma de suas figuras mais influentes nesta terça-feira. O arquiteto Francisco Manuel “Cuqui” Batista Bisonó faleceu aos 101 anos, deixando um legado de mais de oito décadas dedicadas à transformação de cidades, à formação de gerações de profissionais e à concepção da arquitetura como ferramenta a serviço das pessoas.
Nascido em 6 de junho de 1925, em Santiago de los Caballeros, Cuqui Batista desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento urbano do país. De acordo com o perfil biográfico publicado pela Construmedia, seu estilo característico é evidente em alguns dos projetos institucionais, culturais, educacionais e urbanos mais emblemáticos da República Dominicana, muitos dos quais permanecem parte integrante do cotidiano de milhares de dominicanos.
Mais do que um simples arquiteto, ele era um pensador da cidade. Segundo depoimentos coletados pelo veículo de comunicação em uma entrevista especial realizada em 2025, aqueles que trabalharam ao seu lado o lembram como um profissional rigoroso, meticuloso e profundamente ético, convicto de que todo projeto, independentemente de sua escala, deveria responder às necessidades da sociedade e respeitar o meio ambiente onde era construído.
Seu compromisso com a arquitetura também transcendeu sua prática profissional. De acordo com o obituário publicado pelo Colégio Dominicano de Arquitetos (CAD), Cuqui Batista foi um dos fundadores dessa organização e desempenhou um papel ativo na defesa de uma associação profissional independente.
Um visionário que deixou sua marca nas cidades
Após se mudar para Santo Domingo em 1945 para estudar Arquitetura na Universidade Autônoma de Santo Domingo (UASD), Batista iniciou uma carreira que o tornaria uma das principais referências da arquitetura dominicana moderna, segundo a Presidência.
Segundo informações históricas compiladas pelo Ministério da Cultura, ao longo de sua carreira profissional, participou do projeto de importantes edifícios e infraestruturas que moldaram o desenvolvimento urbano do país. Entre eles, destaca-se o Palácio de Belas Artes, considerado sua obra mais emblemática e um dos principais exemplos da arquitetura moderna nacional.
Seu legado inclui também o projeto do primeiro quartel de bombeiros de Santiago, o prédio do Partido Social Cristão Reformista, o Edifício Profissional na Avenida Las Carreras, parte dos primeiros edifícios da Pontifícia Universidade Católica Madre y Maestra (PUCMM) em Santiago, bem como 26 pontes na Rodovia Duarte entre Santiago e Santo Domingo.
Em Santiago, sua visão de planejamento urbano também se refletiu em projetos que ajudaram a redefinir o crescimento da cidade, como os bairros urbanizados de Los Jardines Metropolitanos e Las Colinas, bem como o Shopping Center Los Jardines, um edifício que atualmente abriga diversos escritórios públicos.
Sua produção profissional também incluiu mais de vinte urbanizações, dezenas de edifícios institucionais, comerciais e religiosos, projetos habitacionais e rodoviários, consolidando um conjunto de obras que transcendeu a arquitetura para influenciar o planejamento urbano do país.

Arquitetura entendida como um serviço
Longe de conceber a arquitetura apenas de uma perspectiva estética, Cuqui Batista defendeu uma visão baseada na funcionalidade, no clima, na segurança estrutural e no compromisso com a cidade.
Segundo o Centro León, ele foi um estudioso de longa data do planejamento urbano e dos principais movimentos da arquitetura internacional. Admirava as ideias de Walter Gropius, Le Corbusier e Ludwig Mies van der Rohe, mas insistia que cada projeto deveria responder à realidade dominicana e não simplesmente copiar modelos estrangeiros.
Seu pensamento refletiu-se em inúmeros escritos e ensaios, nos quais analisou os desafios do crescimento urbano e questionou soluções que, em sua opinião, afetavam a qualidade de vida dos cidadãos.
Mesmo após completar cem anos, ele continuou a criar esboços e a desenvolver propostas para edifícios mais seguros face a sismos, demonstrando que a sua curiosidade intelectual se manteve intacta até aos seus últimos anos.
O professor que moldou gerações
Além de suas obras, aqueles que conviveram com Batista concordam que uma parte fundamental de seu legado reside nas pessoas que ele ajudou a moldar.
Durante décadas, ele transformou seu estúdio em um espaço de aprendizado onde jovens arquitetos encontravam não apenas ensinamentos técnicos, mas também uma filosofia de trabalho baseada na honestidade, no rigor profissional e na responsabilidade social.
Sua humildade se refletia em uma frase que ele repetia frequentemente: "Fui um simples cartunista a vida toda", uma expressão coletada pela Construmedia durante uma entrevista publicada em 2025. No entanto, essa definição contrastava com o reconhecimento que ele recebia tanto de colegas quanto de instituições nacionais e internacionais.
Um dos momentos mais significativos de sua carreira ocorreu em 2025, quando a Pontifícia Universidade Católica Madre y Maestra (PUCMM) lhe concedeu um doutorado honoris causa. Como a universidade durante sua 111ª cerimônia de formatura no campus de Santiago, o reconhecimento foi uma resposta às suas extraordinárias contribuições para a arquitetura dominicana e à sua influência no desenvolvimento do campus universitário, onde projetou alguns de seus primeiros edifícios e o plano diretor original.

Um século de reconhecimento
A importância de seu trabalho tem sido reconhecida nas últimas décadas por diversas instituições.
Segundo informações históricas sobre sua trajetória profissional, em 2006 foi declarado Patrimônio Vivo da Arquitetura Dominicana pela Sociedade de Arquitetos da República Dominicana. Posteriormente, recebeu o Prêmio José Ramón Báez López-Penha como Ícone da Arquitetura Dominicana, além de reconhecimentos da Fundação Harry Walter Palm, do Colégio Dominicano de Engenheiros, Arquitetos e Agrimensores (CODIA) e do Ministério da Cultura por suas contribuições ao Palácio de Belas Artes. Foi também homenageado na inauguração da XII Bienal Internacional de Arquitetura e Urbanismo em 2024 e recebeu o reconhecimento por sua notável trajetória profissional no Prêmio Construgala de 2025.
Essas homenagens refletiram o consenso existente no setor sobre o alcance de uma carreira que abrangeu mais de oito décadas e ajudou a definir uma parte importante do panorama arquitetônico nacional.
Um legado que permanece de pé

Com a morte de Francisco "Cuqui" Batista, chega ao fim a vida de um dos arquitetos que mais contribuíram para o pensamento e a construção da República Dominicana contemporânea.
Seu nome permanecerá associado a obras como o Palácio de Belas Artes, os primeiros edifícios da PUCMM, o Corpo de Bombeiros de Santiago, as pontes da Rodovia Duarte, os loteamentos que impulsionaram o crescimento de Santiago e inúmeros projetos públicos e privados que continuam em operação.
Mas talvez seu maior legado não resida apenas no concreto, no aço ou nas plantas. Ele também reside em uma forma de entender a arquitetura como um compromisso com as pessoas, com as cidades e com as gerações futuras.
Francisco Manuel «Cuqui» Batista Bisonó (1925-2026) deixa um legado de obras que continuará a fazer parte da paisagem dominicana e da história da arquitetura nacional.
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