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O caminho para o local onde nasce a pedra que parece copiar o fundo do mar

A paisagem montanhosa é comum, sem nada que sugira que guarde uma jóia, mas ali está uma pedra que talvez seja uma

SANTO DOMINGO. – O primeiro indício da existência do larimar surgiu no mar, sob a forma de contas azuis como pedaços do céu que as ondas das Caraíbas e de Barahona batiam, arredondavam e poliam caprichosamente ao sabor de María la O., cuja história será contada noutra ocasião.

Nunca se tratou de uma exploração mineira, mas sim de um acontecimento fortuito que remonta a 1916, e da tentativa falhada do padre Miguel Domingo Fuertes Loren, que relatou a existência de algumas pedras azuladas e tentou obter autorização para as explorar, sem sucesso.

Assim, em 1974, Miguel Méndez e o voluntário do Corpo da Paz, Norman Rilling, caminhavam pela praia de Bahoruco, mesmo onde o rio com o mesmo nome desaguava no mar, quando repararam nas pequenas pedras azuis. Seguiram o rio para montante e, na zona conhecida como Los Chupaderos ou Los Checheses, encontraram o depósito, no interior da Serra de Bahoruco, perto de Las Filipinas, contendo a única mina deste tipo no planeta. Mas ainda não sabiam disso.

Embora o seu nome científico seja pectolita, será sempre Larimar, a combinação de "Larissa e mar", segundo a história contada no Museu da Larimar, no site larimarminer.com e no arquivo que guarda as publicações da imprensa nacional.

A mina é alcançada seguindo para o interior, afastando-se do mar, subindo a montanha. A estrada deixa Barahona e, pouco a pouco, a paisagem livra-se do calor e da agitação da cidade, e a estrada é acompanhada por aquele azul infinito à esquerda e pela paisagem verdejante que, por vezes, a beija pela direita. O destino fica junto à Serra de Bahoruco, subindo por La Ciénaga.

A fórmula química é NaCa₂Si₃O₈(OH), e diz-se: silicato de sódio e cálcio, denominado pela mineralogia como pectolite e, embora se encontre em muitas partes do planeta, a variedade azul, graças ao cobre, é a que provém das entranhas de Barahona.

A palavra que melhor explica a sua singularidade é "única". E porque não é uma "pedra preciosa" se é extraordinariamente rara? Porque ser preciosa nada tem a ver com beleza, mas sim com uma categoria comercial e histórica que se limitou a um clube de quatro gemas: diamante, rubi, safira e esmeralda, que de facto possuem a dureza que lhes confere valor.

Existe uma escala, a escala de Mohs, que serve, de forma muito simples, para medir a resistência de um mineral aos riscos. O talco está na base, com 1; o diamante está no topo, com 10. A larimar situa-se geralmente entre 4,5 e 5. Isto significa que não é uma pedra particularmente dura: pode ser riscada com relativa facilidade por materiais mais duros e requer mais cuidado do que uma safira, um rubi ou um diamante.

Em suma: a larimar é bela, rara e única, mas não é uma pedra "muito dura" e, por isso, não possui as mesmas características práticas das gemas que dominam o mercado da alta joalharia, embora seja tão bonita como as outras.

Existe outra palavra: clivagem, que se refere à forma como uma pedra tende a dividir-se, dependendo da sua estrutura interna. No caso do larimar, esta "veia" faz com que muitas peças se assemelhem a fibras ou linhas que irradiam de um único ponto, como um leque, e faz parte da sua estrutura interna.

A questão é que, embora não faça parte do clube das pedras "perfeitas", a larimar é uma pedra muito mais rara do que as preferidas pelo mercado.

É um paradoxo: é uma pedra que existe praticamente em apenas um lugar do planeta, e ainda assim pode sair desse lugar no seu estado bruto, sem ter recebido o valor acrescentado do corte, do design, da joalharia e da marca. A montanha possui a raridade, e o mercado decide o seu valor.

Da praia às montanhas

O registo mineralógico situa o complexo mineiro de Larimar, nas Filipinas, a poucos quilómetros de Barahona, perto de La Ciénaga, Paraíso e Polo, embora não seja aconselhável imaginar a mina como uma atração turística convencional.

Trata-se de uma área de mineração ativa, com poços e túneis. As condições de acesso podem variar, devendo qualquer visita ser autorizada e acompanhada por pessoas familiarizadas com a zona.

Mas este pormenor, longe de diminuir o encanto da viagem, torna-a mais real, porque antes de chegar à montra, é preciso chegar à montanha. E a montanha não produz larimar limpo, polido e brilhante.

Entrega uma pedra suja, e por detrás de cada pedaço de céu sólido está o produto de uma cadeia de trabalho que inclui procurar a veia, extrair o material, separá-lo, levá-lo para a oficina e escolher qual a parte que se pode tornar numa jóia.

Da geologia à economia

Artesãos e representantes do sector denunciaram que os compradores estrangeiros estão a adquirir grandes volumes de larimar em bruto. (Fonte externa).

As exportações de larimar voltaram a gerar debates recentemente, principalmente em relação às vendas para os mercados asiáticos, incluindo a China. Em 2025, o Ministério da Energia e Minas informou que, entre janeiro e junho, foram emitidos certificados de não objeção para a exportação de 177.540 libras de larimar, com um valor estimado em aproximadamente 15 milhões de dólares , para vários países, incluindo a China.

Em julho de 2026, o Ministério defendeu a política de exportação e afirmou que cerca de 60% da produção permanece no país, enquanto 40% é exportada, e reportou uma produção de 188.696 libras durante o primeiro semestre de 2026.

Mas em Bahoruco existe outra preocupação: os artesãos e os representantes do sector denunciaram que os compradores estrangeiros adquirem grandes volumes de larimar em bruto e que estes têm dificuldade em competir por esta matéria-prima.

A discussão não se resume a "A China compra larimar". A questão mais interessante é: qual o valor do larimar antes de sair de Barahona e qual o seu valor depois de lapidado, polido, desenhado e transformado numa jóia?

Um quilo de pedra em bruto é uma coisa, uma pedra selecionada e lapidada é outra. Uma joia acabada é mais uma coisa, e cada etapa acrescenta valor.

Barahona tem as montanhas, a pedra, os mineiros e os artesãos. A disputa comercial gira em torno de quanto desse valor permanece no território que possui algo que nenhum outro lugar no mundo pode oferecer.

Em 2025, o “Larimar Barahona” obteve o registo internacional como Denominação de Origem Protegida ao abrigo do Acordo de Lisboa, com proteção em 28 países. A intenção é que a denominação geográfica não seja um mero adorno, mas sim uma forma de proteger a identidade e o valor do produto.

Porque a larimar não é só azul, é azul Barahona, e essa diferença pode acabar por ser economicamente importante.

De volta ao mar e à cidade

De volta a Barahona, a cidade reaparece como uma pausa entre as montanhas e o mar.

Aqui pode pernoitar e planear a sua viagem para Bahoruco. Existem hotéis e alojamentos tanto na cidade como ao longo da estrada para o Paraíso, bem como restaurantes onde pode parar antes ou depois da subida.

Mas depois de ver de onde vem o larimar, Barahona passa a ser vista de outra forma: a pedra deixa de parecer um mero artesanato turístico.

É uma cadeia: a montanha dá-a ao mineiro. O mineiro dá-a ao comprador. O comprador pode enviá-la para o estrangeiro. O artesão tenta obtê-la: corta-a, lustra-a, transforma-a numa jóia, e alguém, algures no mundo, acaba por usar ao pescoço ou na mão uma pedra que iniciou a sua viagem naquelas montanhas de Barahona.

Agora existe até um esforço para garantir que o nome da sua origem viaja com ela, e talvez seja essa a melhor forma de compreender a larimar. Ela não precisa que ninguém lhe invente uma história, porque ela já tem uma.

Mas a viagem mais interessante continua a ser a primeira, aquela que vai do mar à montanha.

Porque aí reside a surpresa: sobe à procura de uma pedra que tenha o nome do mar e de uma menina, e descobre que o mar não está lá dentro.

Ele está lá em baixo, à espera, enquanto lá em cima, sob a montanha, os mineiros continuam à procura de pedaços de céu azul.

Leituras recomendadas:

Por que a larimar só existe na República Dominicana? A história por trás da pedra azul do Caribe

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Solangel Valdez
Solangel Valdez
Jornalista, fotógrafa e especialista em relações públicas. Aspirante a escritora, leitora, cozinheira e viajante.
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