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Sobrecarga, corrosão e negligência: os sinais ignorados antes do colapso da Jet Set

Por Escarlin Pozo

El Inmobiliario

SANTO DOMINGO -A tragédia estrutural que vitimou 232 pessoas na boate Jet Set em 8 de abril foi um evento que, segundo a engenheira estrutural Frinet Muñoz, poderia ter sido evitado se os processos de avaliação técnica exigidos pelas normas vigentes tivessem sido respeitados.

Isso foi explicado pela especialista durante uma entrevista no programa "El Día", onde ela analisou os elementos que, segundo sua experiência profissional, deveriam ter sido considerados para evitar o desabamento.

Muñoz esclareceu que, de acordo com as normas dominicanas, qualquer mudança de uso em um edifício — como no caso do Jet Set, originalmente concebido como cinema e posteriormente convertido em boate — exige um estudo de vulnerabilidade estrutural para determinar se o edifício pode suportar as novas demandas de carga e as alterações.

Nesse sentido, ele explicou que, ao modificar a função de uma estrutura, é necessário "recalcular as cargas que ela suportará" e, se necessário, realizar os reforços estruturais correspondentes.

"O que se faz é recriar o edifício tal como ele é e submetê-lo a novas cargas, porque será uma mudança, para poder verificar e identificar se a estrutura está em conformidade", disse ele.

O especialista salientou que, se o edifício não cumprir os requisitos estabelecidos, "o que se faz é propor reforços".

"Esses reforços podem variar de fibra de carbono a elementos estruturais, reforço de paredes, reforço de vigas, inclusão em colunas, inclusão em vigas, que são elementos estruturais resistentes do sistema", especificou ele.

Muñoz insistiu que o simples nivelamento de um piso ou a realização de alterações "aparentemente pequenas" não exime ninguém dessa obrigação técnica, uma vez que qualquer alteração pode implicar novas cargas na estrutura original.

“De acordo com as normas do Ministério das Obras Públicas e do Ministério da Habitação, toda estrutura exige que, caso se pretenda alterar o uso ou a função de um edifício, seja realizado um estudo de vulnerabilidade”, salientou.

Vazamentos, sobrecarga e falta de controle

Ao analisar as condições mencionadas pelo proprietário da boate, Antonio Espaillat — entre elas as constantes alterações nos tetos de gesso e a presença recorrente de infiltrações —, o engenheiro especificou que os tetos não fazem parte do sistema estrutural, mas são considerados “cargas permanentes” de natureza estética.

No entanto, ele alertou que os vazamentos contínuos são um sinal precoce de deterioração que, se não forem corrigidos prontamente com supervisão técnica especializada, podem comprometer a integridade dos elementos estruturais a médio ou longo prazo, situação que o gerente Espaillat revelou durante uma entrevista com a jornalista Edith Febles.

“O problema dos vazamentos torna-se crítico quando a água penetra no concreto e atinge o aço. O aço então inicia um processo de oxidação que, se não for corrigido a tempo, pode reduzir sua capacidade de resistir à flexão, comprometendo a estabilidade estrutural”, explicou ele.

O engenheiro, que é professor universitário, explicou como o aço corroído perde área de seção transversal, o que enfraquece sua capacidade de resistir a tensões de flexão, uma das propriedades fundamentais do concreto armado.

Ele explicou que essa degradação progressiva poderia se tornar um dos muitos fatores que agravavam o estado do edifício.

Em sua análise, Muñoz também discutiu o uso de vigas protendidas no Jet Set, uma técnica que utiliza cabos de alta resistência tensionados após a concretagem da viga.

Ele indicou que, se um desses cabos falhar, o colapso pode ser imediato e violento, como relataram testemunhas dessa tragédia, que narraram ter sentido uma "explosão" antes do teto desabar.

“Se esses cabos se soltassem, poderia ter havido uma grande explosão, porque a força que esses cabos exercem sobre a viga é o que a faz funcionar perfeitamente. Se um deles falhar, pode desencadear um efeito dominó em toda a estrutura”, disse ele.

Em relação à carga adicional de aparelhos de ar condicionado e galpões no telhado, ele explicou que no país não há controle sobre as modificações feitas após os cálculos estruturais iniciais.

Ele observou que, em geral, os telhados são projetados para suportar 100 quilos por metro quadrado, mas quando equipamentos pesados ​​são adicionados sem recalcular a estrutura, essa capacidade é facilmente excedida.

“O cliente precisa fornecer ao projetista estrutural as especificações de peso dos equipamentos que deseja instalar, para que os cálculos estruturais sejam ajustados. Mas, na prática, isso quase nunca acontece no nosso país”, lamentou.

Além disso, a engenheira também analisou o possível impacto das vibrações causadas pelo uso do prédio como boate e, embora tenha descartado fenômenos como a ressonância — típica de estruturas mais altas e flexíveis —, reconheceu que a soma das vibrações, das cargas adicionais e da deterioração acumulada poderia ter contribuído como outro fator para a tragédia.

Em relação ao incêndio relatado meses antes do desabamento, ele alertou que, mesmo que tenha sido um incêndio localizado, é sempre obrigatório realizar uma avaliação estrutural pós-incêndio para detectar danos não visíveis, como a perda de capacidade do aço devido às altas temperaturas.

A falta de controle e uma cultura de prevenção exacerbam a vulnerabilidade

Além do caso específico, o avaliador estrutural emitiu um alerta geral sobre o estado da construção civil na República Dominicana.

Ele denunciou que muitos edifícios, tanto públicos quanto privados, não cumprem adequadamente os protocolos de manutenção, avaliação e reforço, em um contexto de alta vulnerabilidade sísmica.

“O futuro é muito sombrio se não mudarmos. Todos somos responsáveis. Não quero culpar apenas o Estado; os cidadãos também têm um dever (...). Muitas pessoas não sabem que existem empresas certificadas que realizam avaliações de vulnerabilidade que garantem a sua total segurança se seguirem as recomendações”, alertou.

Frinet Muñoz concluiu reiterando que a tragédia do Jet Set não deve ser vista como um evento isolado, mas como um reflexo de uma cultura de improvisação, ignorância técnica e falta de aplicação rigorosa das normas relativas à construção, reforço e supervisão estrutural.

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