Joan Gerardo Feliz
Especial para El Inmobiliario
O setor da construção civil na República Dominicana atravessa um período complexo que impacta não apenas incorporadoras e construtoras, mas também — e principalmente — aqueles que investem em suas próprias casas ou imóveis. Aumentos significativos nos preços dos materiais de construção, aliados à preocupante escassez de mão de obra qualificada, criaram um efeito dominó que resulta em custos mais altos e atrasos nos projetos. Contudo, a dura realidade é que o peso dessa crise recai principalmente sobre o consumidor final, que sofre as consequências dessa reação em cadeia.
Aumento contínuo dos preços das matérias-primas: pressão constante
Segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (ONE), o Índice de Custo Direto da Construção de Habitações (ICDV) registrou um aumento acumulado de mais de 32,8% entre 2020 e 2024. Esse aumento reflete a alta dos principais insumos que compõem o custo total da construção.
Os seguintes aumentos são particularmente dignos de nota:
Aço corrugado: +58% nos últimos quatro anos, em parte devido à flutuação do dólar e à demanda global.
Cimento Portland: teve um aumento de cerca de 27%, sendo um produto indispensável em todos os projetos de construção.
Madeira para cofragem: aumento de 41%, causado pela escassez internacional e pelos custos de transporte mais elevados.
Custos logísticos: os custos de transporte e logística aumentaram 38%, agravados pelo aumento dos combustíveis e do frete internacional.
Esse aumento de preço impacta diretamente os custos finais, mas além disso, afeta o planejamento financeiro de milhares de dominicanos que investem suas economias em um projeto imobiliário, muitas vezes em estágios iniciais, na modalidade de compra na planta.
Comprar na planta: uma promessa sob pressão

A compra de imóveis na planta tem sido um modelo amplamente utilizado no país devido à sua acessibilidade financeira e à possibilidade de adquirir uma propriedade a um preço geralmente inferior ao praticado após a conclusão do projeto. No entanto, o atual contexto de inflação e escassez transformou esse benefício em uma fonte de incerteza.
Os compradores que assinaram contratos há dois ou três anos com expectativas claras de preço e prazo de entrega agora enfrentam uma realidade diferente: atrasos nas entregas, custos adicionais e alterações nas especificações que, por vezes, não foram formalmente acordadas.
A incerteza quanto aos prazos de entrega não só causa transtornos, como também acarreta um custo financeiro real: o dinheiro investido permanece imobilizado enquanto os preços de mercado continuam a subir. Além disso, para quem depende de financiamento imobiliário, as mudanças nas condições tornam o acesso ao crédito e o planejamento dos pagamentos ainda mais difíceis.
Trabalho: o elo cada vez mais frágil
A isso se soma o crescente problema da mão de obra qualificada. A construção civil é um setor que demanda muita mão de obra, e a escassez de pessoal qualificado é um dos principais desafios enfrentados pelas construtoras. A migração para outros setores econômicos com salários melhores, aliada à falta de treinamento técnico adequado, limita a capacidade de resposta das empresas de construção.
Essa escassez gera múltiplos efeitos negativos:
Aumento dos custos salariais para atrair e reter talentos.
Atrasos nas fases críticas da obra.
A falta de um controle rigoroso pode levar à deterioração da qualidade da construção.
Esses fatores não apenas aumentam os custos, mas também afetam a confiança do comprador, que percebe o aumento dos prazos de entrega e o atraso em seus investimentos.
Quem arca com o custo final? O comprador
Em teoria, as construtoras deveriam absorver os custos decorrentes desses aumentos. No entanto, na prática, o ônus recai sobre o comprador final, que enfrenta um duplo golpe: preços mais altos e prazos de espera mais longos.
Isso acontece porque o mercado imobiliário opera com base no princípio de que o consumidor, ao assinar um contrato, aceita um preço que, na maioria dos casos, está sujeito a ajustes pela inflação e variações nos custos de produção. Quando esses aumentos excedem as expectativas, as construtoras geralmente negociam aumentos ou modificações de preços que, em última análise, resultam em um desembolso maior para o comprador.
Os bancos e instituições financeiras, por sua vez, também estão reagindo com cautela a essa dinâmica, endurecendo os critérios para empréstimos hipotecários, o que limita ainda mais a capacidade do comprador médio de acessar a moradia.
Impacto no mercado e no desenvolvimento econômico
Essa situação tem um efeito negativo no mercado imobiliário dominicano. Por um lado, a queda na confiança afeta a demanda, enquanto, por outro, os projetos enfrentam maiores riscos financeiros e operacionais.
O setor da construção civil é um pilar fundamental da economia nacional, não só pela sua contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB), mas também pela sua capacidade de gerar emprego e estimular outras indústrias relacionadas. Portanto, qualquer fator que limite o seu desenvolvimento também impacta o crescimento econômico do país.
Propostas e caminhos a seguir
Diante dessa situação, é essencial que os setores público e privado coordenem ações para mitigar esses efeitos e proteger o comprador.
Contratos claros e justos: Os contratos de compra precisam incluir cláusulas transparentes que expliquem como os ajustes de preço devido à inflação ou à escassez serão tratados, com limites que protejam o comprador.
Maior supervisão e apoio: Promover maior supervisão e garantias nos projetos para assegurar que cumpram os prazos e as especificações.
Formação técnica: Invista na formação e capacitação de mão de obra especializada para melhorar o fornecimento e reduzir custos.
Incentivos estatais: O governo pode criar mecanismos que apoiem a produção de moradias acessíveis e promovam a estabilidade de preços e entregas.
Conclusão: Um apelo para proteger o comprador
Em resumo, o setor da construção civil na República Dominicana enfrenta desafios que exigem soluções colaborativas e responsáveis. No entanto, nesse cenário, uma verdade inegável e incontestável permanece: o consumidor final é quem, em última instância, paga o preço.
Milhares de famílias dominicanas, jovens profissionais e investidores enfrentam atualmente um mercado em que os contratos de compra iniciais são prejudicados por aumentos de preços e atrasos fora de seu controle. É hora de exigir maior transparência, proteção e comprometimento para que a moradia, em vez de ser uma fonte de incerteza, se torne um direito e uma oportunidade para todos.
Porque, se há algo que deve ficar claro, é que no desenvolvimento imobiliário dominicano, quem menos pode arcar com os custos não pode ser necessariamente quem suporta as maiores perdas.
O autor possui MBA, é especialista em marketing digital e gerente de operações da construtora Incaribe, com mais de 10 anos de experiência nos setores de construção e turismo.




