O ar cheira a alho e cebola, folhas de coentro amassadas, peixe fresco, incenso e uma poção do amor que promete o que a ciência não pode. O Mercado Modelo cheira, acima de tudo, à República Dominicana
SANTO DOMINGO – Desde que abriu suas portas em 1943, em plena ditadura de Rafael Leónidas Trujillo, este prédio na Avenida Mella tem sido palco da vida cotidiana dominicana em sua versão mais autêntica: barulhenta, malcheirosa, repleta de negociações e um toque de magia.
O Mercado Modelo foi uma das obras mais funcionais e duradouras de Henry Gazón Bona, arquiteto e astrólogo dominicano-francês nascido em 1909. Autor do Monumento aos Heróis da Restauração em Santiago e da Casa Vapor em Santo Domingo, ele foi uma figura central na arquitetura oficial durante a era dominicana, especializado em concreto armado. O construtor foi Guido D'Alessandro Lombardi, e o arquiteto Moncito Báez López-Penha também colaborou no projeto.
A estrutura, delimitada pelas ruas Santomé, Hernando de Gorjón, José del Monte y Tejada e pela Avenida Mella, foi concebida como o primeiro centro de abastecimento agrícola do Distrito Nacional: um mercado moderno para uma ditadura que precisava demonstrar modernidade.
Mas, acima de tudo, Santo Domingo precisava de um centro organizado para o comércio de alimentos, um lugar onde a cidade pudesse encontrar num só lugar o que chegava disperso de todas as regiões do país, e para essa época foram construídos três centros semelhantes: um em San Cristóbal, outro em Santiago e o de Santo Domingo.
Enclave de cheiros
Várias gerações possuem um mapa sensorial que nenhum projeto arquitetônico poderia reproduzir. A luz da manhã inundava a Rua Hernando de Gorjón, trazendo consigo o perfume intenso das bancas de flores, enquanto os vendedores arrumavam seus buquês ao lado das barracas que vendiam remédios tradicionais ou plantas medicinais.
Desde cedo, os aromas se misturavam sem ordem ou protocolo: terra úmida da mandioca recém-chegada de Moca ou Yamasá, peixe fresco, água da Flórida, canela em pau, incenso, ou mangas e goiabas. Ao redor, os mantimentos, os grãos: arroz crioulo, hoje extinto, feijão preto, vermelho e carioca. Grãos de café e milho verde para torrar.

Imagens da época da criação do Mercado Modelo e da situação atual. (Foto: AGN/Fidel Pérez).
Os talhos, onde se ensinava a diferença entre roti e almôndegas, e as peixarias, com os nomes das espécies escritos em papelão, ocupavam as alas oeste e leste do segundo andar, cada uma em seu próprio território. Os armazéns de mercearias e produtos alimentícios estendiam-se para baixo e para fora, desembocando na Rua Hernando de Gorjón.
No centro de tudo, algumas lojas de presentes que ainda não sabiam que, com o tempo, dominariam a paisagem, cercadas por frutarias e barracas ocasionais vendendo fogões e caldeirões de ferro, jarras de alumínio e esmaltadas, colheres de pau, coadores de café, vassouras de guano e penicos esmaltados.
Mas o coração do mercado era a sua escadaria na Avenida Mella. Ampla e sempre movimentada, era também o local preferido dos vendedores de bilhetes de loteria e dos operadores de casas de apostas, que ofereciam sorte a cada hora com um número diferente e a mesma promessa imutável: este é o prêmio de domingo. Ninguém realmente acreditava neles. Todos ouviam, e muitos tentavam a sorte.
Para muitos moradores da Cidade do México, ao longo de gerações, o Mercado Modelo era uma espécie de escola informal, um lugar onde aprendiam que a comida tem uma geografia. Aprendiam a pechinchar sem ofender, a fazer cálculos mentais antes mesmo do vendedor terminar de falar e a reconhecer peixe fresco pelos olhos brilhantes e guelras vermelhas.
Você aprendeu que nem todas as bananas-da-terra são iguais: "Essas são de Mao?" "Não, são dos vasos vermelhos." Que a boa mandioca tem terra preta: "Me dê a mandioca de Moca, ela só vê água e racha." Que o inhame de Yamasá tem uma textura que não mente, e que os rúculas de Moca apareceram como que por milagre entre as barracas.
E entre os alimentos e cortes de carne, velas coloridas, escapulários, santinhos, relicários, pó de litargírio, fogos de artifício, bobes de cabelo e toucas de cabelo coexistiam sem contradição. Objetos religiosos e utensílios domésticos sempre compartilhavam o mesmo espaço, como se ninguém jamais tivesse traçado uma linha divisória entre o doméstico e o espiritual.
O mercado que é
Oito décadas depois, o edifício ainda está de pé; a estrutura projetada por Gazón Bona persiste, embora o tempo e a falta de manutenção tenham cobrado seu preço. A luz ainda entra verticalmente pelas janelas, iluminando um interior que mudou lentamente.
A transformação mais visível está no conteúdo. Onde antes havia barracas de comida, hoje predominam mais de 150 lojas de artesanato: bonecas de pano, joias de larimar e âmbar, pinturas, chaveiros, lembrancinhas de todos os tipos
O mercado que antes abastecia os bairros se tornou, em grande parte, um mercado que mostra aos turistas um pedaço da cultura dominicana para levar para casa.
O que não mudou, e talvez nunca mude, é a Santeria. Os corredores que já exalavam aromas botânicos nos anos setenta ainda oferecem colônias misteriosas, líquidos de eficácia duvidosa e curandeiros que garantem amor, dinheiro e boa sorte. A herança africana e a devoção popular coexistem aqui com uma naturalidade que nenhum decreto conseguiria regular.
E aquela escadaria, com seus degraus largos e sólidos de concreto, elevando-se com uma certa gravidade republicana para dentro do edifício. Para qualquer criança que passe pela Avenida Mella e olhe para cima, aquela escadaria parece enorme, o limiar de algo importante.
O Mercado Modelo não está vivendo seus melhores momentos em termos comerciais, de acordo com o plano original, mas continua sendo uma visita imperdível para turistas em busca de autenticidade, para dominicanos na diáspora que querem levar algo para casa e para aqueles que ainda se lembram de como era subir aqueles degraus em uma manhã de sábado, com uma lista na mão e a certeza de que voltariam com mais do que esperavam.
O Mercado Modelo, embora transformado, não desapareceu completamente. É o lugar onde a capital aprendeu a comer, a fazer compras, a acreditar, a sobreviver.
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