A rede, que em seu auge operava 34 hotéis e 14.053 quartos em Cuba — a maior presença hoteleira estrangeira já registrada na ilha — está fechando os 19 hotéis que ainda mantinha em funcionamento
SANTO DOMINGO – A rede hoteleira espanhola Meliá encerrará completamente suas operações em Cuba a partir desta sexta-feira, 24 de julho, conforme confirmado pela empresa nesta terça-feira à Comissão Nacional do Mercado de Valores Mobiliários (CNMV) da Espanha.
A decisão, executada por meio de sua subsidiária portuguesa Ilha Bela Gestao e Turismo, veículo através do qual administra seus hotéis na ilha, põe fim a uma das relações comerciais mais antigas e simbólicas entre o capital espanhol e o turismo cubano.
A declaração enviada ao órgão regulador atribui a saída às "significativas dificuldades operacionais, legais, econômicas e financeiras" que, segundo a empresa, afetam persistentemente o ambiente cubano e impossibilitam uma "estabilidade operacional mínima" em suas atividades.
A decisão abrange não apenas a gestão hoteleira, mas também o uso das marcas Meliá, as operações de turismo receptivo e a cadeia de suprimentos local ligada aos estabelecimentos, explicou a empresa.
Com este encerramento, a Meliá abandona os 19 hotéis que ainda mantinha abertos na ilha, depois de ter anunciado no dia 3 de junho o encerramento imediato de outros 15 estabelecimentos.
No geral, a retirada representa a perda de cerca de 15% do portfólio hoteleiro global da empresa, que chegou a operar 34 hotéis e 14.053 quartos em Cuba, a maior presença hoteleira estrangeira já registrada na ilha, segundo dados divulgados pela própria empresa no início do ano.
Em fevereiro: “Não temos a intenção de nos retirar de forma alguma”
A saída definitiva marca uma mudança em relação à posição publicamente defendida pelo presidente e CEO da Meliá, Gabriel Escarrer, há apenas alguns meses.
Em fevereiro passado, durante a apresentação dos resultados anuais da empresa, Escarrer afirmou enfaticamente que a Meliá não considerava deixar Cuba: “Não temos intenção de nos retirar de Cuba. Sentimo-nos muito confortáveis com a nossa atual estrutura operacional”, declarou na ocasião, segundo o site especializado Hosteltur.
O executivo descreveu a evolução dos negócios na ilha durante o último trimestre de 2025 e em janeiro deste ano como "muito positiva", em comparação com o período anterior.
Essas declarações surgiram em meio a uma das muitas crises energéticas que já faziam parte da rotina operacional da rede em Cuba, e com uma taxa de ocupação hoteleira de apenas 40,2%, segundo dados da própria empresa citados pelo site 14ymedio, bem abaixo do restante de seus mercados, embora claramente em recuperação em comparação com o ano anterior.
O cenário mudou rapidamente a partir de junho, quando os Estados Unidos estabeleceram um prazo, 5 de junho, para que empresas estrangeiras rompessem laços com a GAESA, o conglomerado empresarial das Forças Armadas Cubanas, sob pena de serem excluídas do sistema financeiro americano.
Em meados de julho, em entrevista ao El Confidencial citada pelo site Periódico Cubano, o próprio Escarrer admitiu a incerteza: “A verdade é que não sabemos o que vai acontecer. Estamos seguindo as instruções do Departamento de Estado dos EUA”. Dias depois, veio o anúncio da completa paralisação das operações.
Pressão das sanções e colapso do turismo
A Associated Press, que cobriu o anúncio de Havana, observou que a decisão da Meliá ocorre depois que os Estados Unidos ampliaram suas sanções em 13 de julho para incluir o Ministério do Turismo cubano, parceiro comercial de mais de uma dúzia de hotéis que a rede ainda operava na ilha, em uma lista negra.
Segundo uma análise citada pela agência, as políticas do governo de Donald Trump estão "fechando de forma metódica e sistemática todas as fontes de moeda estrangeira para o governo cubano", nas palavras de Paolo Spadoni, professor da Universidade de Augusta, na Geórgia.
A agência francesa France 24 e a agência espanhola EFE, citadas por meios de comunicação como La Región e La Prensa do Panamá, situaram a saída da Meliá num contexto de bloqueio comercial reforçado, crise energética com apagões de mais de vinte horas por dia e uma drástica perda de conectividade aérea: companhias aéreas como a Iberia, a Air France e a Turkish Airlines suspenderam as suas rotas para a ilha, enquanto a Air Europa mantém uma presença limitada.
O resultado, segundo essas fontes, foi uma queda de mais de 55% na chegada de visitantes durante os primeiros quatro meses de 2026.
Os números divulgados pela Meliá e compilados pelo portal CiberCuba confirmam a deterioração: a taxa de ocupação dos hotéis da rede na ilha foi de apenas 34,1% no primeiro trimestre deste ano, bem abaixo da média global da empresa, que se aproxima de 59%, e em 2025 Cuba recebeu apenas 1,81 milhão de visitantes internacionais, o menor número desde 2002, sem contar os anos da pandemia.
A Meliá não é a única rede a se retirar. Segundo relatos da imprensa, a Iberostar deixou de operar 12 hotéis ligados à Gaviota, outra empresa da rede militar cubana, e a Blue Diamond Resorts anunciou sua própria saída, num padrão que o portal de notícias OnCubaNews descreve como o fim, “pelo menos por enquanto”, de 36 anos de laços entre a capital espanhola e o turismo cubano.
A empresa, que teve um faturamento global de € 2.096,6 milhões em 2025, indicou que está avaliando o impacto financeiro dessa saída, incluindo uma possível revisão do valor contábil de seus ativos na ilha, cujos detalhes serão divulgados juntamente com os resultados do primeiro semestre de 2026.
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