As medidas fiscais propostas no plano anticrise, apresentado pelo Governo ao Congresso, beneficiam compradores, vendedores e construtoras dentro do mercado formal e financiado. O déficit habitacional de mais de 1,4 milhão de unidades, documentado em dados oficiais, opera em uma escala diferente
SANTO DOMINGO – As medidas habitacionais incluídas no plano anticrise de 11 de junho de 2026, do Ministério da Fazenda e Economia, não chegam aos mais necessitados de um teto na República Dominicana, embora o Plano Decenal de Habitação 2022-2032 do Ministério da Habitação e Edificações estime o déficit habitacional em mais de 1,4 milhão de unidades.
Estes são dados da Pesquisa ENHOGAR, elaborada com a colaboração técnica do Banco Central da República Dominicana, do Instituto Nacional de Estatística e do Ministério da Economia, Planejamento e Desenvolvimento.
73% desse déficit é de natureza qualitativa: famílias que vivem em habitações de péssima qualidade, construídas com materiais deficientes, sem acesso a serviços básicos ou em condições de superlotação.
Por que a exclusão?
Todas as medidas do plano relacionadas à habitação, como a revogação gradual do imposto de 2% sobre hipotecas, a redução do ISR sobre ganhos de capital na venda de imóveis por pessoas físicas de 25% para 10%, a eliminação imediata do acréscimo de 1% para a constituição de empresas, a revogação gradual do Imposto Seletivo sobre Consumo em seguros de vida e a redução do imposto sobre herança entre pais e filhos em vida de 25% para 3%, operam dentro do mercado financeiro formal.
Seu beneficiário é alguém que já tem acesso ao sistema bancário ou está em condições de acessá-lo, de modo que famílias com déficit habitacional qualitativo não resolvem sua situação por meio de crédito imobiliário bancário.
Dados da Superintendência de Bancos indicam que a carteira de crédito imobiliário encerrou 2025 em RD$ 443.170 milhões, com um crescimento anual de 13,2%, a maior taxa entre todos os segmentos de financiamento, segundo o Relatório sobre crédito no sistema financeiro.
No primeiro trimestre de 2026, a carteira de crédito imobiliário cresceu 11,4% em relação ao ano anterior, dentro de um sistema cujos ativos totais atingiram RD$ 4,28 trilhões, de acordo com o relatório trimestral de desempenho do sistema financeiro da mesma instituição.
No final de 2025, havia 2.618.955 indivíduos com empréstimos ativos no sistema, e esse é o universo que as medidas do plano abrangem.
Quem vence?
Nesse universo, os benefícios são distribuídos em diferentes pontos da cadeia:
O comprador é quem enfrenta o impacto mais direto e imediato: a taxa de registro da hipoteca de 2%, que, segundo a Help Community do Serviço da Receita Federal, incide sobre o valor total do empréstimo e não é dedutível do Imposto de Renda, é paga no momento da assinatura do contrato, quando o comprador já comprometeu o pagamento inicial e assumiu as despesas legais da transação.
A sua eliminação gradual reduz esse encargo no momento de maior pressão financeira no processo de compra. A redução do imposto sobre as mais-valias de 25% para 10% incentiva os vendedores particulares a colocarem os seus imóveis no mercado
O promotor imobiliário beneficia-se em dois momentos: na constituição da entidade jurídica do projeto, com a eliminação imediata do 1% para a constituição de empresas, e na fase de investimento, com a depreciação acelerada prevista a partir de 2027.
Além disso, o próprio documento do Tesouro não apresenta essas medidas como política de habitação social. O slide 24 da apresentação oficial do Ministro Magín J. Díaz as coloca na seção sobre crescimento econômico e simplificação tributária, com a justificativa explícita de que se tratam de impostos que afetam a competitividade e aumentam o custo da formalização.
O objetivo declarado é fiscal e empresarial, não residencial, portanto a diferença entre o mercado alcançado pelas medidas e o déficit refletido pelos dados oficiais deixa claro o limite do alcance da proposta.
Leituras recomendadas:
- O plano anticrise intervém pela primeira vez em toda a cadeia tributária da habitação financiada
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- O que está impulsionando os empréstimos bancários? Os empréstimos hipotecários cresceram 11,4%




