Hipólito Mejía entregou o poder a Leonel Fernández em agosto de 2004 sem ter resolvido o déficit habitacional, mas deixou algo que nenhum governo anterior havia produzido: um dado oficial, baseado no censo, para mensurá-lo
SANTO DOMINGO – Em 16 de maio de 2004, Leonel Fernández derrotou Hipólito Mejía nas urnas com uma margem de 57,11% a 33,65% dos votos e, três meses depois, retornou ao Palácio Nacional para um segundo mandato.
Fernández herdaria uma economia que estava apenas começando a se recuperar após a crise bancária de 2003: no primeiro trimestre de 2004, o produto interno bruto ainda contraiu, 0,2% em comparação com o trimestre anterior, e o acordo de direitos de saque que o país havia assinado com o Fundo Monetário Internacional foi suspenso, conforme detalhado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe em sua avaliação desse período de dois anos.
Em matéria de habitação, porém, Mejía deixou algo que transcende o balanço de obras concluídas ou inacabadas descrito nas edições anteriores desta série: pela primeira vez na história da República Dominicana, o país teve seu próprio censo oficial para medir o déficit habitacional.
O VIII Censo Demográfico e Habitacional, realizado em 2002, permitiu ao Instituto Nacional de Estatística calcular, anos mais tarde, que apenas 27,63% das casas dominicanas não apresentavam nenhum tipo de deficiência qualitativa, enquanto 56,83% apresentavam alguma deficiência relacionada a materiais de construção, serviços básicos ou tipo de habitação.
A dimensão quantitativa do problema — ou seja, o número de novas casas que o país precisava construir para lidar com a superlotação e a superlotação de famílias compartilhando o mesmo teto — foi estimada em 689.812 unidades em todo o país, das quais 422.936 estavam em áreas urbanas e 266.876 em áreas rurais. Em outras palavras, o fardo daqueles que vivem em condições de superlotação.
Além disso, 25,94% dos domicílios dominicanos viviam em condições de superlotação, com mais de 2,5 pessoas por quarto.
O Instituto Nacional de Estatística não processou nem publicou esses resultados até anos mais tarde, já durante o segundo mandato de Fernández, de modo que Mejía governou e deixou o poder sem ter em mãos o número exato que seu próprio censo havia apurado.
O que o censo de 2002 legou, no entanto, foi a base de dados que tornou possível calculá-lo: sem ele, nenhuma administração subsequente, nem mesmo aquela que compararia esse número com o censo de 2010 para medir o progresso ou retrocesso do país, teria tido um ponto de partida confiável.
Esse contraste resume o paradoxo do período de quatro anos que esta série documentou. A arquitetura institucional descrita na primeira parte, com seus sucessivos gabinetes, conselhos e decretos, buscava precisamente sistematizar a maneira como o Estado entendia e abordava o problema da habitação.
A crise bancária de 2003 representou um duro golpe para essa ambição, restringindo o crédito e causando uma contração de 8,5% na construção civil naquele ano. E o projeto Invivienda, que se arrastava há quatro administrações consecutivas, terminou sob o governo Mejía com centenas de apartamentos inacabados e um episódio de retomada militar sem precedentes em qualquer governo anterior.
No entanto, em meio a essa avaliação agridoce, o país emergiu de 2004 com um retrato estatístico de si mesmo que não possuía em 2000. Fernández herdaria esse quadro, juntamente com uma economia em convalescença e um sistema financeiro que mal se recuperava do desaparecimento de três de seus principais bancos.
A forma como ele usou, ou não usou, essa informação para elaborar a política habitacional de seu segundo mandato como governo é assunto para a próxima etapa desta série.
Fontes: Escritório Nacional de Estatísticas (ONE), “O Déficit Habitacional na República Dominicana: Panorama Atualizado das Necessidades Habitacionais, 2010” (Divisão de Pesquisa, em colaboração com a CELADE, abril de 2014), com dados do VIII Censo Demográfico e Habitacional de 2002. | Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), “Pesquisa Econômica da América Latina e do Caribe 2003-2004”, capítulo sobre a República Dominicana. | Resultados da eleição presidencial dominicana de 16 de maio de 2004.
Leituras recomendadas:




