Em meio à urgência, votações governamentais e um documento de 99 páginas que não foi lido, a Câmara dos Deputados revive uma dívida histórica com empreiteiras, marcada por tragédias humanas, objeções constitucionais e décadas de pagamentos pendentes
SANTO DOMINGO – Na Câmara dos Deputados, a cena se repetiu ontem, com uma mistura de pressa e silêncios constrangedores: um projeto volumoso, apresentado na véspera, declarado urgente, dispensado de leitura e aprovado na primeira discussão sem um debate aprofundado.
Assim, a Câmara dos Deputados aprovou ontem uma lei que busca resolver uma dívida antiga , mas também abrir uma nova discussão: pode o Estado pagar o que nunca formalizou?
Apesar dos protestos dos blocos de oposição, o projeto de lei de 99 páginas, apresentado por Alfredo Pacheco, deputado pelo Distrito Nacional e líder do Partido Revolucionário Moderno (PRM), atual presidente da câmara, foi aprovado sem leitura prévia ou revisão por comissão.
O que diz o pedacinho de papel
O documento autoriza, de forma “excepcional e única”, o reconhecimento, a validação e o pagamento de trabalhos realizados sem contrato formal, incluindo extensões não documentadas e trabalhos adicionais executados em projetos fora dos processos legais ordinários.
Para esse fim, os legisladores criaram uma comissão chefiada pelo Tesouro, juntamente com o Orçamento, a Controladoria e a Secretaria de Licitações, que terá a tarefa de verificar as obras, expurgar arquivos e autorizar pagamentos.
Formalmente, a lei tenta impor ordem ao caos. Politicamente, ela o acelera.
Vou voltar pela porta dos fundos
O projeto não é novo de forma alguma. Trata-se da segunda versão de uma iniciativa que já havia sido aprovada pelo Congresso e devolvida integralmente pelo Poder Executivo em janeiro passado.
Essa lei, também aprovada em caráter de urgência, foi vetada pelo presidente por acreditar que ela violava princípios constitucionais, não era respaldada por uma previsão de verbas e não havia certeza quanto à dívida a ser paga.
O novo texto, segundo seus proponentes, incorpora sugestões do Executivo, mas, além de incluir as obras já contempladas na versão anterior, acrescenta outras, principalmente ligadas ao setor da educação.
No entanto, isso mantém a essência do problema: a legalização de obrigações “ex post facto” que se originaram fora do quadro contratual do Estado.
A dívida obscura por trás do jornal
Para além do processo legislativo, a questão tem um contexto que transcende o âmbito jurídico.
Durante anos, empreiteiros, na sua maioria engenheiros de pequena dimensão, queixaram-se de terem construído obras para o Estado sem receberem o pagamento, alguns casos remontando à década de 1990.
Esse atraso não só gerou litígios, como também deixou um rastro sombrio. Em 2015, o suicídio do engenheiro David Rodríguez García , que trabalhava no antigo Escritório de Engenheiros Supervisores de Obras Estaduais, revelou uma teia de dívidas, pressões e corrupção.
Sobrecarregado por obrigações financeiras decorrentes de um projeto estatal, o engenheiro tirou a própria vida, desencadeando um dos maiores escândalos administrativos da época.
Mais recentemente, em 2026, um engenheiro relatou que pelo menos 19 profissionais haviam cometido suicídio e outros haviam morrido sem receber pagamento por trabalhos realizados para o governo, sobrecarregados por dívidas crescentes e ruína financeira pessoal.
Um padrão emerge: projetos concluídos, contas não pagas, vidas destruídas.
Entre a justiça e o risco
Para o partido no poder, a lei é um ato de justiça tardia, enquanto a oposição a vê como um precedente perigoso.
Críticos, tanto do próprio setor da construção civil quanto da classe política, alertam que a iniciativa não define claramente o valor total a ser pago, abre caminho para a validação de dívidas sem garantias suficientes e pode comprometer fundos públicos sem controles rigorosos.
Os alertas não são abstratos. Emiliano Familia, porta-voz do Comitê Institucional Codiano (CIC), criado para agilizar a cobrança da dívida antiga, denunciou que o Estado mantém milhões em dívidas com centenas de empreiteiras e exigiu um mecanismo formal de pagamento, alertando para o impacto econômico e humano desses atrasos.
Na frente política, a ex-congressista Guadalupe Valdez foi além, ligando diretamente a falta de pagamentos, as dívidas e as práticas irregulares em obras públicas a esquemas de corrupção estrutural, apontando que esses mecanismos levavam os empreiteiros a contrair dívidas em condições insustentáveis.
O próprio histórico do projeto reforça essas dúvidas: a versão anterior já havia sido questionada por ordenar pagamentos sem garantias de disponibilidade orçamentária.
Urgência, votos e páginas não lidas
A imagem deixada pela sessão é impressionante: uma lei extensa, apresentada da noite para o dia, aprovada sem leitura, sem amplo debate e com a oposição contrária. Uma lei que tenta liquidar uma dívida histórica, mas que levanta a questão institucional de se o Estado, em vez de corrigir suas falhas pagando com atraso, está apenas legitimando-as.
Porque por trás de cada parcela em atraso não existem apenas números. Existem histórias, algumas das quais foram interrompidas prematuramente.
Leituras recomendadas:
- Empreiteiros irão à Câmara dos Deputados nesta segunda-feira para exigir a aprovação de um projeto de lei que autoriza o pagamento de dívidas antigas
- Reunião crucial: setores e congressistas buscam definir medidas após o Executivo devolver a lei sobre pagamentos a contratados
- O Comitê Codiano reconhece inconsistências na fatura para pagamento de dívidas a empreiteiras




