A Associação de Hotéis e Projetos Turísticos da Zona Leste reivindica há 27 anos um plano de ordenamento territorial, que, segundo o anúncio, estará pronto em 60 dias.
SANTO DOMINGO – Nesta quarta-feira, 10 de setembro, durante a cerimônia de abertura da Feira de Negócios da Associação Nacional de Hotéis e Restaurantes (Asonahores) de 2025, o Ministro do Turismo, David Collado, anunciou que o plano diretor territorial do município de Verón-Punta Cana estará pronto em menos de 60 dias.
O empresário do setor turístico Frank Rainieri, pioneiro no desenvolvimento do destino, aplaudiu o anúncio: "Finalmente teremos um plano de ordenamento territorial", reiterando que a reivindicação da Associação de Hotéis e Projetos Turísticos da Zona Leste não foi atendida há 27 anos, o que levou a um crescimento descontrolado e desordenado.
Rainieri denunciou repetidamente o uso irresponsável das áreas costeiras: remoção de dunas, extração de areia, danos aos manguezais e zonas úmidas, e em entrevista ao Diario Libre falou de cumplicidade, tolerância e impunidade.
Juan Bancalari, presidente da Asonahores, afirmou em entrevista ao Diario Libre, no dia 2 de setembro: “O planejamento do uso do solo é o principal ponto abordado na estratégia de sustentabilidade… para que amanhã não se construa uma indústria em uma zona hoteleira, ou um hotel em uma zona industrial”, e incluiu Las Terrenas, em Samaná, como o segundo destino a ser contemplado, devido à sua alta densidade populacional e grande fluxo de veículos.
O planejamento do uso do solo permite a distribuição e delimitação adequadas do uso da terra, definindo zonas de proteção ambiental, áreas produtivas e espaços urbanos e rurais. Seu principal objetivo é alcançar um desenvolvimento sustentável e harmonioso, evitando conflitos entre as atividades econômicas, sociais e ecológicas.
Essa necessidade decorre do rápido crescimento, que, por sua vez, exerce imensa pressão sobre os recursos naturais e contribui para as mudanças climáticas. Envolve um processo de planejamento e gestão do espaço que visa organizar as atividades humanas de forma equilibrada, respeitando o meio ambiente e garantindo o bem-estar da população.
O Plano Nacional de Ordenamento Territorial, anunciado pelo Ministro do Turismo, prevê um investimento de US$ 89 milhões, financiado pelo Estado Dominicano e pelo Banco Mundial, e será implementado ao longo de quatro anos.
Verón-Punta Cana: um espelho
O distrito municipal de Verón-Punta Cana representa um laboratório em larga escala do que pode dar errado quando o crescimento supera a capacidade institucional. A Lei 368-22 oferece ferramentas sólidas: concede poderes, exige planejamento, cria instituições jurídicas e impõe responsabilidade. Mas, sem implementação prática, sem uma vontade institucional clara e com regulamentações aplicadas apenas parcialmente ou desconhecidas, esse arcabouço legal permanece apenas no papel, enquanto o “caos” ao qual Rainieri se refere não é mera queixa estética.
Trata-se de uma crise de desenvolvimento: ambiental, econômica e social, que exige o funcionamento de uma autoridade transparente, que assuma a responsabilidade, respeite as normas e execute os planos territoriais; caso contrário, Verón-Punta Cana corre o risco de que seu crescimento deixe de ser uma vantagem e se torne um fardo.
Radiografia
• Verón-Punta Cana, embora seja um distrito turístico com mais de 15.000 habitantes, reivindica a autoridade para emitir alvarás de construção, licenças de uso do solo e gerir o seu próprio planeamento urbano, conforme estipulado no artigo 24.º da Lei 368-22 sobre Ordenamento do Território, Uso do Solo e Assentamentos Humanos. • No entanto, muitas destas ações não são reconhecidas pelo Ministério da Habitação, Habitat e Edificações (MIVHED) nem pela Câmara Municipal de Higüey, que sustenta que certas licenças só podem ser concedidas por esse município. O presidente da Câmara de Verón afirma que estas autoridades continuam a agir como se a lei não existisse. • A Assessoria Jurídica do Poder Executivo, em comunicação datada de 3 de julho de 2025, confirmou que a Lei 368-22 está em pleno vigor desde 24 de dezembro de 2022, data da sua publicação no Diário Oficial. • Apesar dessa validade, alguns agentes governamentais argumentam que certos aspectos da aplicação (aqueles relacionados aos escritórios locais de planejamento urbano e aos certificados de uso do solo) exigem regulamentações específicas para entrarem em vigor. Verón afirma que isso não pode mais ser uma desculpa para negar-lhes autoridade. • Em Verón-Punta Cana, projetos imobiliários e turísticos estão paralisados devido à falta de reconhecimento legal das licenças emitidas pela Junta Distrital ou pelo órgão local competente. As empresas alegam que não há justificativa técnica ou legal para o bloqueio dessas licenças. • Além disso, em maio de 2025, Verón decidiu romper os acordos municipais com Higüey referentes à distribuição de taxas e impostos, com base na nova lei, argumentando que essas arrecadações não estão mais legalmente sob a jurisdição de Higüey para projetos dentro dos limites de Verón.
Durante o workshop, parte do programa da Expo Asonahores 2025 intitulado “Planejamento Territorial: rumo a um desenvolvimento turístico planejado e sustentável”, os palestrantes insistiram que é fundamental impedir que o turismo dominicano continue sua expansão sem regras claras.
A atividade destacou a importância da aplicação efetiva da Lei 368-22 sobre Ordenamento Territorial e Uso do Solo, juntamente com o seu regulamento, o Decreto 396-25, como instrumentos legais indispensáveis para a coordenação entre municípios, zonas turísticas e ministérios, entidades que mantêm uma disputa de poder.
Os líderes empresariais e autoridades presentes concordaram que a única maneira de enfrentar os novos desafios da sustentabilidade e da diversificação no setor é por meio de um grupo de trabalho multissetorial que inclua o governo, o setor privado e as comunidades locais. Eles também destacaram a necessidade de reformar a Lei do Turismo Orgânico de 1969, considerada obsoleta.
E embora não seja o único Distrito Municipal afetado por disputas sobre uso do solo, planejamento urbano e poderes, é uma das situações mais visíveis e conflituosas, devido à sua alta exposição turística, grande número de investimentos, pressão sobre o solo, infraestrutura, serviços e à relevância dos poderes legais que a Lei 368-22 atribui aos distritos municipais com mais de 15.000 habitantes e capacidade de arrecadação.




