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Sete igrejas e uma noite: uma crônica dos monumentos efêmeros da Semana Santa na Cidade Colonial

Um percurso que propõe descobrir a pé os monumentos da Semana Santa como uma experiência em que o efêmero ganha significado e cada parada oferece uma pausa, um olhar e um silêncio compartilhado

SANTO DOMINGO –  Na noite da Quinta-feira Santa, os templos da Cidade Colonial abrem suas portas para mostrar aos visitantes, que chegam em peregrinação silenciosa e dispersa, os “monumentos” que os paroquianos preparam como parte do ciclo litúrgico da Semana Santa.

Documentados em manuais e estudos sobre a Semana Santa, especialmente na Espanha e na Itália, os monumentos fazem parte da tradição católica universal e, além da ornamentação, das flores, das luzes e da encenação, simbolizam:

– A Espera: Cristo no Jardim das Oliveiras

– A empresa: o apelo para não o deixarem sozinho

– A transição: da Quinta-feira Santa para a Sexta-feira Santa
– A fé materializada: o intangível ganhou espaço, luz e forma.

E elas só são exibidas na noite da Quinta-feira Santa. São efêmeras, sim, mas é justamente aí que reside sua força, pois existem para desaparecer, e a cada ano o desenho muda.

O percurso

A procissão faz parte da tradição católica. (Foto/cortesia de Naivi Frias).

A Cidade Colonial muda seu ritmo quando a noite cai na Quinta-feira Santa. A agitação diminui, e aqueles que a percorrem o fazem em ritmo lento, deixando-se levar por ruas que parecem se abrir por si mesmas, como se convidassem a uma jornada de fé.

Recomendamos ao leitor que faça o tour e sugerimos uma ordem de início pela parte oeste. Claro que você pode fazer como preferir; o resultado será o mesmo


Primeira parada: Igreja do Carmo, na rua Arzobispo Nouel


Fica bem perto da Rua Palo Hincado, e você sempre encontrará a porta aberta. Não haverá instruções, mas todos parecem saber o que fazer: entre, fale baixo, olhe ao redor, fique em silêncio. O altar temporário onde repousa o Santíssimo Sacramento aparecerá iluminado por uma luz suave. Não será ostentoso, mas será o suficiente para te fazer parar.

Alguém fará o sinal da cruz. Outro permanecerá de pé, enquanto talvez você se ajoelhe e, antes de partir, tire uma fotografia que imortalizará aquela imagem que se supunha ser passageira.

Esta igreja data do século XVII. Fazia parte do antigo convento carmelita e foi aqui que as ordens religiosas consolidaram a sua presença na cidade após o período colonial inicial. Testemunha uma vida conventual e espiritual mais tranquila, menos documentada, mas constante.



Segunda parada: Igreja Regina Angelorum, Rua Padre Billini



Na rua paralela a leste, você encontrará este templo de pedra mais isolado, e dentro de seus muros, o leve ruído da rua desaparece por completo. Provavelmente encontrará um monumento simples, quase austero. Mas nessa simplicidade reside uma clara intenção: compelir você a olhar sem distrações. Menos elementos, mais significado.
E o visitante obterá uma compreensão que será confirmada posteriormente: não existe um modelo único. Cada comunidade interpreta esse ritual à sua maneira, criando com o que tem.

Ativa desde o século XVI, esta igreja faz parte de um convento dominicano de clausura e é um dos poucos lugares que mantém essa tradição até hoje. É um símbolo da continuidade ininterrupta de um modo de vida religioso ao longo dos séculos.



Terceira parada: Igreja de Las Mercedes, rua Las Mercedes


Você sai da Regina Angelorum e segue pela Rua José Reyes em direção ao norte, subindo a ladeira. Na Rua Mercedes, vire à esquerda. Você poderá encontrar mais pessoas, mais movimento, mais flores e um monumento mais elaborado, quase teatral, sem que isso lhe perca o respeito.

Não faltarão velas, teares, níveis e profundidade. Uma composição concebida para guiar o olhar em direção ao centro: a custódia.

Alguém lhe dirá: "Eis Jesus". E nenhuma outra explicação será necessária, porque aí reside a outra dimensão desses espaços: eles também são pedagogia, uma forma de tornar visível o que de outra forma seria abstrato.

Dedicada a Nossa Senhora da Misericórdia, padroeira da República Dominicana, esta igreja remonta ao século XVI e é um centro histórico de devoção, pois esta invocação mariana foi usada como protetora durante os movimentos de independência. Aqui, fé e identidade nacional se encontram.


Quarta parada: Igreja de San Miguel, Rua José Reyes


Ao sair, volte para a Rua José Reyes e suba a colina até o parque. Ali você realmente sentirá a atmosfera do bairro, e a experiência será mais do que uma simples visita; será um encontro: pessoas se cumprimentando em voz baixa, reconhecendo rostos e retornando ano após ano.

O monumento não é apenas religioso: é comunitário, construído por muitos e cuidado por todos. E nesse gesto compartilhado reside algo mais profundo: a tradição não é herdada intacta, ela é reconstruída a cada vez.
Antes de chegar a San Miguel, você pode fazer uma breve parada e, se estiver aberto, comprar doces da María la Turca. A tradição também é algo que se pode saborear.

Este templo não nasceu para representar poder ou doutrina, mas sim proximidade, visto que a sua construção, entre o final do século XVI e o início do século XVII, respondeu mais à necessidade de atender à crescente população local do que ao impulso institucional e, talvez por essa razão, séculos depois, continua a ser uma igreja que se sente habitada.


Quinta parada: Igreja de Santa Bárbara



Siga pela Rua José Reyes até a Avenida Mella e continue em direção leste até o início da rua. Ao caminhar por ela, tente identificar os antigos estabelecimentos comerciais. No final da rua, você encontrará esta igreja histórica onde Juan Pablo Duarte, nosso herói nacional, foi batizado.

Menos lotado e com muito mais espaço para observar e apreciar. Os tecidos, as velas, os arranjos podem parecer simples, mas nada está ao acaso. Tudo responde a uma linguagem simbólica em uma arquitetura de fé temporal:

– A luz, como presença divina
– As flores, como vida oferecida
– O branco e o dourado, como o sagrado
– O ostensório, no centro, como foco absoluto.

Também do século XVI, localizado quase na extremidade da muralha colonial, este templo está ligado ao nascimento da nação, embora não fosse um símbolo de poder, mas do povo que construiu a cidade.
Talvez seja por isso que, em meio a ruínas e restaurações, ele permanece um dos lugares onde a história se faz sentir mais de perto.


Sexta parada: Catedral de Santo Domingo, Rua Arcebispo Meriño


Ao sair de Santa Bárbara, siga pela Arzobispo Meriño em direção ao sul e, ao chegar ao Parque Colón, faça uma pausa sob um dos loureiros e admire a imponente arquitetura da Catedral de Santa María la Menor, a primeira catedral das Américas. Aqui, a escala muda. O monumento não precisa exagerar, pois a própria Catedral contém a cena. Reina a sobriedade, e talvez seja por isso que ela seja tão impactante.
O murmúrio é constante, mas baixo. Alguns rezam, muitos tiram fotos em silêncio e depois guardam seus celulares, como se estivessem constrangidos com o gesto. Como se entendessem que nem tudo deve ser registrado, mas o fazem, e imortalizam o que estava destinado a desaparecer e permanecer apenas na memória.

Este ponto representa mais do que uma simples parada: é o coração simbólico da jornada.
Esta catedral foi consagrada em 1541, após quase três décadas de construção, numa época em que Santo Domingo era o principal centro do poder espanhol no Novo Mundo. Era o centro do poder eclesiástico e o coração institucional da colônia.

Sétima parada: Igreja e Convento dos Dominicanos, Rua Padre Billini


A cerimônia de encerramento carrega um peso histórico. Siga pela Rua Meriño em direção ao sul e vire à direita na Rua Padre Billini. Em um quarteirão, você encontrará as pedras, a altura, a penumbra. E tudo parece amplificar o significado do ritual. Você descobrirá que o monumento eclesiástico não compete com o espaço: ele se integra, permite ser absorvido.
Aqui, o cerne do simbolismo se torna evidente: velar, acompanhar, não deixar Cristo sozinho na noite anterior à crucificação. Não é um espetáculo, é uma vigília.
E se a Catedral representava o poder, na era colonial, os Dominicanos representavam a palavra e o pensamento. Construída ao mesmo tempo em que a cidade estava sendo organizada, a Universidade de Santo Tomás de Aquino foi fundada ali em 1538, outra conquista Dominicana no Novo Mundo.

Foi um dos espaços mais influentes da América colonial. Ali, as pessoas não só rezavam, como também organizavam os primeiros debates sobre os direitos dos povos indígenas, liderados por frades dominicanos, dando origem ao pensamento crítico nas Américas.


Quase anônimo

Essa caminhada pode abranger 3,2 ou 3,5 quilômetros, durante os quais você visitará não apenas sete templos, mas também sete maneiras de compreender a fé, o tempo e a memória. Tudo em uma única noite.

Apesar do grande simbolismo e do aumento anual de visitas, há pouco material bibliográfico e até jornalístico que documente essa tradição e os "Altares de Substituição da Quinta-feira Santa" ou "Monumentos" como uma experiência urbana, cultural e estética.

Aqui, o tempo passa e pesa de forma diferente. Imagine os séculos que se passaram por este mesmo espaço. Quantas vezes este ritual se repetiu, em que o silêncio não é ausência, mas presença, e em que cada comunidade interpreta de acordo com as suas possibilidades, a sua sensibilidade e a sua história.

Essa última parada traz uma sensação de conclusão. Embora a noite e a vida continuem, a Cidade Colonial provavelmente não lhe parecerá mais a mesma. Ou talvez a fé materializada, o espaço, a luz e a forma intangíveis criados, tenham despertado algo dentro de você, mesmo que você não saiba exatamente o quê.

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Solangel Valdez
Solangel Valdez
Jornalista, fotógrafa e especialista em relações públicas. Aspirante a escritora, leitora, cozinheira e viajante.
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