Por Joan Feliz Valoys
Especial para El Inmobiliario
Durante décadas, o desenvolvimento turístico na República Dominicana seguiu um padrão muito claro: concentração no leste. Punta Cana, Bávaro, La Romana e Bayahíbe foram os rostos visíveis do turismo dominicano para o mundo. A Zona Colonial e Puerto Plata completaram esse mapa que, embora bem-sucedido em termos numéricos, deixou grandes áreas do país à margem do progresso.
Nesse contexto, falar de Pedernales não se resume a um novo destino turístico. Trata-se de reparação histórica, de uma reconfiguração do modelo de desenvolvimento territorial e da possibilidade de construir uma indústria turística mais justa e sustentável, mais conectada à identidade dominicana.
Um território esquecido… até agora
Pedernales tem sido uma das províncias mais marginalizadas do país há anos. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), até o último censo, apresentava um dos maiores índices de pobreza multidimensional e um dos menores níveis de investimento público per capita. Isolada geograficamente, com acesso rodoviário limitado e escassa conectividade aérea ou marítima, o desenvolvimento parecia um luxo reservado a outras partes do país.
Mas, como às vezes acontece na história, as margens podem se tornar centros. E é isso que está começando a acontecer.
Bahía de las Águilas: a joia do Caribe
Se existe um lugar que encapsula o potencial de Pedernales, esse lugar é a Bahía de las Águilas. Considerada uma das praias mais espetaculares do Caribe por sua beleza intocada, águas turquesas e ambiente desabitado, ela é um ícone do ecoturismo e do turismo de baixo impacto. É também um símbolo de uma longa luta entre interesses públicos e privados, já que seu uso, potencial de exploração e a necessidade de sua conservação foram debatidos durante anos.
Hoje, graças a decisões recentes do governo dominicano, Bahía de las Águilas está se consolidando como o coração de um novo tipo de turismo. Um modelo onde o luxo não é medido por metros quadrados de construção, mas pela experiência natural, autenticidade e respeito ao meio ambiente.
Um megaprojeto que mudará o mapa
O projeto de desenvolvimento turístico de Pedernales faz parte do ambicioso plano de desenvolvimento da região sul, liderado pelo Pro-Pedernales Trust. Prevê-se um investimento público-privado de aproximadamente US$ 2,245 bilhões, com a primeira fase abrangendo a construção de mais de 4.700 quartos de hotel, um aeroporto internacional, um porto de cruzeiros, uma moderna rede rodoviária, aquedutos, estações de tratamento de água e sistemas de energia renovável.
O objetivo é claro: transformar a região em um destino turístico de classe mundial, com foco na sustentabilidade ambiental e social. Estima-se que, em sua primeira fase, o projeto gere mais de 15.000 empregos diretos e indiretos.
Como alguém que acredita firmemente na grandeza e no potencial de Pedernales, vejo este projeto não como uma aposta, mas como uma certeza. Esta é uma região com tudo o que precisa para se tornar um caso de sucesso não só no turismo, mas também no desenvolvimento nacional.
O turismo como veículo para a inclusão
Além dos números, o aspecto mais importante deste projeto é o que ele representa: uma oportunidade real de inclusão. Em um país tão centralizado quanto a República Dominicana, desenvolver Pedernales significa redistribuir riqueza, oportunidades e apoio institucional. O turismo, neste caso, não é apenas uma indústria: é uma ferramenta para a transformação social.
As comunidades de Oviedo, Cabo Rojo, Enriquillo e a própria cidade de Pedernales poderão se integrar a uma nova dinâmica econômica. Empresários, pescadores, agricultores, artesãos e jovens com formação técnica terão a oportunidade de ingressar na cadeia de valor do turismo sem precisar migrar.
O risco de déjà vu
No entanto, toda grande oportunidade traz consigo grandes riscos. O país já vivenciou projetos de desenvolvimento turístico que começaram com boas intenções, mas terminaram em caos, superexploração e conflitos ambientais. Pedernales não pode ser mais um caso de crescimento descontrolado.
Por isso, agora mais do que nunca, precisamos de uma governança forte, planejamento baseado em evidências, cidadania ativa e um Estado que regule, fiscalize e ouça. O modelo de turismo para o sul deve ser construído sobre bases práticas, não em ganhos financeiros.
Ecoturismo, luxo e sustentabilidade: é possível?
Nos últimos anos, o mercado internacional tem demonstrado um crescente interesse por destinos autênticos e ecológicos, bem distantes do turismo de massa. Pedernales pode — e deve — posicionar-se nesse sentido. Não precisa imitar Punta Cana. Pelo contrário: seu valor reside em ser diferente.
Com turismo de baixa densidade, hotéis boutique, pousadas ecológicas, trilhas comunitárias, excursões na natureza e uma narrativa baseada na conservação e na cultura, Pedernales pode se tornar o destino mais atraente para um tipo de viajante mais consciente e exigente, disposto a pagar por experiências únicas.
Um desafio para todos
O sucesso do projeto Pedernales não dependerá apenas do investimento público ou da chegada de grandes cadeias hoteleiras. Dependerá da colaboração entre os setores: o setor privado, o governo, as ONGs ambientais, as universidades e, sobretudo, a comunidade local. A formação técnica, a capacitação em hotelaria, o empreendedorismo local e o empoderamento dos jovens do sul serão fundamentais para garantir que este desenvolvimento não seja passageiro.
O sul também existe
Investir em Pedernales não é uma moda passageira. É uma decisão estratégica, justa e necessária. Representa uma nova forma de entender o turismo, não como uma mercadoria, mas como uma plataforma para o desenvolvimento humano.
Num país onde as divisões territoriais são tão nítidas, olhar para o sul é olhar para o futuro. Um futuro onde o turismo pode ser um motor de crescimento, mas também uma fonte de consciência. Onde o luxo não entra em conflito com a natureza. Onde a economia não atropela a cultura. Onde o mapa turístico da República Dominicana deixa de ser um postal do leste… e se torna um retrato completo da nação.
Como dominicano, como profissional do setor e como alguém que acredita profundamente no potencial deste canto do país, afirmo sem reservas: Pedernales não é o futuro. Pedernales já é o presente. E cabe a nós construí-lo com visão, responsabilidade e amor.
O autor possui MBA, é especialista em marketing digital e gerente de operações da construtora Incaribe, com mais de 10 anos de experiência nos setores de construção e turismo.




