A política de "tolerância zero" da China em relação aos casos de COVID-19 corre o risco de agravar as interrupções nas cadeias de suprimentos globais. Os problemas no setor imobiliário chinês também podem se espalhar para o resto da economia do país.
Retirado da AFP Washington
A economia global crescerá menos do que o esperado este ano, principalmente devido à desaceleração nos Estados Unidos e na China, alertou o FMI na terça-feira, apontando para um horizonte incerto devido a recessões econômicas, alta inflação e aumento das taxas de juros.
O Fundo Monetário Internacional prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) global cresça 4,4% em 2022, 0,5 ponto percentual a menos do que o projetado em outubro e após um crescimento de 5,9% em 2021, indicou a organização em sua atualização do Economia Mundial(WEO, na sigla em inglês), que antecipa uma recuperação ainda mais fraca na América Latina.
"O crescimento está desacelerando à medida que as economias enfrentam interrupções no fornecimento, inflação mais alta, dívida recorde e incerteza persistente", resumiu Gita Gopinath, diretora-gerente adjunta do FMI, em uma postagem no blog.
O FMI também estimou que a inflação terá uma média de 3,9% (+1,6 pontos percentuais) este ano nas economias avançadas e de 5,9% (+1 ponto percentual) nas economias emergentes e em desenvolvimento, persistindo "por mais tempo do que o previsto anteriormente" antes de diminuir em 2023.

As projeções de crescimento foram reduzidas para a grande maioria dos países. Apenas uma região (Oriente Médio e Ásia Central) e algumas nações, incluindo Argentina, Índia e Japão, são exceções.
Segundo o FMI, a desaceleração do crescimento global é "essencialmente" resultado de uma expansão menos vigorosa nos Estados Unidos e na China: de +4% (-1,2 pontos percentuais) e +4,8% (-0,8 pontos percentuais) previstos, respectivamente, para este ano.
Desaceleração dos EUA e da China
Para os Estados Unidos, o Fundo removeu de suas projeções básicas os benefícios que o plano "Reconstruir Melhor" do presidente Joe Biden, que propõe cerca de US$ 1,8 trilhão em gastos sociais, poderia trazer, porque está travado no Congresso.
Além disso, na maior economia do mundo, a inflação está muito acima do esperado e os problemas de abastecimento persistem. Enquanto isso, a China enfrenta uma recessão no setor imobiliário e um consumo interno mais fraco, consequência das medidas drásticas para conter a disseminação da variante ômicron.
As interrupções no fornecimento também levaram a previsões mais baixas na zona do euro, onde o crescimento esperado é de 3,9% (-0,4 pontos percentuais), com reduções nas perspectivas para a Alemanha (para 3,8%, -0,8 pontos percentuais) e para a Espanha (para 5,8%, -0,6 pontos percentuais).
Embora as economias avançadas devam retornar à sua tendência pré-pandemia este ano, o FMI indicou que uma recessão em vários mercados emergentes e economias em desenvolvimento no médio prazo não pode ser descartada.
Cortes para o Brasil e o México
Para a América Latina e o Caribe, o FMI prevê uma expansão de 2,4% (-0,6 pontos percentuais), com reduções para as duas maiores economias: o PIB do Brasil crescerá apenas 0,3% e o do México, 2,8% (em ambos os casos, -1,2 pontos percentuais em comparação com a estimativa de outubro).
No Brasil, "o combate à inflação desencadeou uma forte resposta da política monetária, que afetará a demanda interna. Uma dinâmica semelhante está ocorrendo no México, embora em menor escala", afirmou o FMI, aludindo aos aumentos das taxas de juros pelos bancos centrais dos dois países.
"Além disso, a revisão em baixa da previsão de crescimento dos EUA traz consigo a perspectiva de uma demanda externa mais fraca do que o esperado para o México em 2022", acrescentou.
Em contrapartida, a Argentina, terceira maior economia da América Latina, que negocia há meses o refinanciamento de uma dívida de 44 bilhões de dólares com o FMI, deverá crescer 3% em 2022 (+0,5 pontos percentuais), após uma contração de 9,9% em 2020 e uma expansão de 10% em 2021.
Múltiplas ameaças
Os economistas do FMI concordam que o crescimento global enfrenta múltiplas ameaças.
A política de "tolerância zero" da China em relação aos casos de COVID-19 corre o risco de agravar as interrupções nas cadeias de suprimentos globais. Os problemas no setor imobiliário chinês também podem se espalhar para o resto da economia do país.
Ao mesmo tempo, uma inflação mais alta
Por ora, o FMI está considerando um cenário de três aumentos nas taxas de juros nos Estados Unidos este ano e três no próximo. Se o Federal Reserve (o banco central dos EUA) aumentasse suas taxas de juros de referência de forma mais rápida e acentuada, os países emergentes e em desenvolvimento, cuja dívida é denominada em dólares, seriam diretamente afetados.
O FMI também aponta para "crescentes tensões geopolíticas e agitação social" devido à inflação, sem descartar a possibilidade de surgirem variantes mais perigosas do que a ômicron.
O FMI reiterou, portanto, a importância do controle da pandemia, enfatizando a necessidade de vacinação em larga escala nos países em desenvolvimento.
Para 2023, o Fundo elevou sua estimativa de crescimento global para 3,8% (+0,2 pontos percentuais), esperando que os atuais entraves se dissipem no segundo semestre deste ano.




