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“Não é mais barato”: Alegações sobre o custo da mão de obra haitiana na República Dominicana são negadas

Escarlin Pozo

SANTO DOMINGO– O setor da construção civil na República Dominicana enfrenta um cenário complexo, marcado pela escassez de mão de obra haitiana, pela desaceleração dos investimentos – tanto públicos quanto privados – e pela persistência do emprego informal.

Este foi o alerta emitido pelos ex-presidentes do Colégio Dominicano de Engenheiros, Arquitetos e Agrimensores (Codia), Martín Concepción e Teodoro Tejada, durante o terceiro episódio do programa “La Ventana de El Inmobiliario”.

Durante sua participação, Concepción sugeriu que uma das medidas que o Governo poderia implementar, por meio do Ministério das Relações Exteriores (Mirex), é a emissão de vistos de trabalho para regular a questão da migração e da mão de obra estrangeira no país.

“Quando eu era presidente da Codia, há 25 anos, lembro-me de ter dito que o governo dominicano e o Ministério das Relações Exteriores deveriam levar a sério a questão dos imigrantes, concedendo vistos de trabalho. E eles nunca o fizeram”, observou ele.

O engenheiro civil também falou sobre uma das causas que influenciam o declínio do setor da construção civil, citando o que foi dito pelo economista e ex-diretor da Direção-Geral de Impostos Internos (DGII), Magín Díaz, que afirma que as deportações de imigrantes ilegais podem estar impactando o setor.

“A questão das deportações de imigrantes indocumentados pode estar impactando o setor, embora não haja dados concretos sobre isso. Mas se considerarmos que 85% da construção civil opera no mercado de trabalho informal, segundo dados da Pesquisa Contínua da Força de Trabalho publicada pelo Banco Central, não há dúvida de que essa questão pode estar influenciando o desempenho do setor nos últimos meses”, explicou Díaz em uma publicação divulgada no início de maio.

Concepción afirmou que, quando era presidente da Codia, o governo em exercício não dava importância à regulamentação da imigração por meio de vistos, o que, segundo ele, se devia a um “conflito de interesses políticos”.

“A corrupção não se limita a quem controla a fronteira; a corrupção também envolve os cônsules que estão no lado dominicano negociando vistos”, declarou ele.

Por sua vez, Teodoro Tejada revelou que existe uma “máfia” no país que condiciona a permanência de trabalhadores haitianos em canteiros de obras à exigência de pagamentos cada vez maiores para evitar prisões ou deportações.

“Tive que dar a ele 10.000 pesos, depois dei 18.000; agora são 25.000. Então, eu disse a ele: 'Não, fique, porque existe uma máfia poderosa de professores aqui'”, relatou, revelando os pagamentos que exigem para libertar os haitianos detidos.

Tejada comentou que existe uma ideia errada sobre a mão de obra haitiana, já que — ao contrário do que muitos pensam — “ela não é mais barata”.

Ele destacou que, atualmente, muitos haitianos trabalham como mestres de obras com um alto nível de experiência, resultado da dedicação que demonstraram ao aprender a profissão.

“Há ótimos profissionais que assentam pisos, instalam azulejos; eletricistas e encanadores. Esses haitianos se dedicaram e aprenderam muito, é verdade, e são boas pessoas”, explicou ele. 

Ambos os engenheiros concordaram que, no local de trabalho, procuram cumprir as disposições do Código do Trabalho da República Dominicana, especificamente o disposto no artigo 135, referente à chamada regra 80/20 para os trabalhadores.

Para isso, citamos: “Pelo menos oitenta por cento do número total de trabalhadores de uma empresa deve ser composto por dominicanos.”.

“É um fato que a migração, os imigrantes, são um elemento importante do desenvolvimento e da construção. No meu caso específico, faço o possível para cumprir a regra 80/20. E é muito difícil atingir a cota de 80% de dominicanos, mas estamos mobilizando o país inteiro para tentar fazer com que isso aconteça”, disse Martín.  

Panorama econômico do setor da construção

Ambos os especialistas discutiram o setor da construção civil sob uma perspectiva econômica e as políticas que estão sendo desenvolvidas no país em relação ao investimento na construção.

Martín Concepción comparou o crescimento anual que o setor vem apresentando, levando em consideração seu desenvolvimento antes da pandemia de COVID-19.

“Está crescendo anualmente a uma taxa média de 1,7%, enquanto que até 2019, antes da pandemia, crescia a uma taxa de 5,5% ao ano”, observou ele.

Por sua vez, Teodoro Tejada afirmou que, em outubro de 2021, o então Ministro da Economia, Planejamento e Desenvolvimento, Miguel Ceará Hatton, havia relatado em um programa que o investimento privado era de 85%, enquanto o investimento público era de 15%.

Naquela ocasião, ele enfatizou que essa proporção demonstrava a grande participação do setor privado no desenvolvimento e na construção imobiliária.

Ele observou que os projetos de construção privados se expandem quando existem incentivos, como baixas taxas de juros e a liberação das reservas obrigatórias pelo Banco Central da República Dominicana.

“Os projetos imobiliários crescem no setor privado quando existem incentivos. Isso inclui as taxas de juros do Banco Central e a liberação significativa de reservas obrigatórias, mas quando não há incentivos para o setor privado, este fica limitado”, enfatizou.

Caso contrário, especificou ele, quando essas condições diminuem, o setor privado encolhe ou desacelera.

Durante a entrevista, Teodoro citou o professor Juan Bosch: "Quando a indústria da construção estatal para, o país para", destacando que mais de 90% dos projetos públicos acabam envolvendo o setor privado.

Ele também mencionou que o setor privado teve que enfrentar altas taxas de juros, dificuldades no acesso a empréstimos e alta volatilidade do dólar.

“Portanto, no setor privado, o declínio se deve a uma taxa de juros muito alta, dificuldades de empréstimo muito severas e um dólar em alta que obrigou o setor privado a se sustentar em duas bases”, disse ele.

Ele também especificou que, nos primeiros quatro meses do ano, 29,5% do investimento em construção não foi executado.

Nesse sentido, o especialista explicou que o investimento público em construção caiu de 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB)em 2004-2008 para 3,6% de 2012 a 2020, atingindo atualmente apenas 2,1-2,5%.

Foto: Justo Feliz.

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