WASHINGTON, D.C. – O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, voltou à arena internacional com uma proposta que gerou intenso debate político e diplomático: a criação de um Conselho Global da Paz, também conhecido como Conselho da Paz, no qual os países interessados teriam que contribuir com US$ 1 bilhão para garantir um assento permanente. A iniciativa, revelada pela mídia internacional e atribuída a versões preliminares do círculo íntimo de Trump, busca estabelecer uma estrutura paralela para mediação e reconstrução em zonas de conflito, tendo a Faixa de Gaza como foco inicial de intervenção.
A proposta surge num contexto de esgotamento dos mecanismos multilaterais tradicionais e de uma crescente percepção da ineficácia de organizações como as Nações Unidas (ONU) na resolução de conflitos prolongados. Trump defendeu este novo organismo como uma alternativa mais ágil, com liderança concentrada e recursos garantidos, capaz de implementar decisões rápidas em cenários onde a diplomacia tradicional falhou.
Gestão financeira e o papel central de Trump
Um dos aspectos mais controversos do projeto é a concentração de poder na administração do fundo. De acordo com documentos preliminares, Trump assumiria a presidência inaugural do Conselho Global da Paz, com amplos poderes para autorizar a admissão de países membros, validar decisões estratégicas e supervisionar o uso dos recursos financeiros arrecadados.
O programa estabelece dois níveis de participação: os países que contribuírem com US$ 1 bilhão obterão adesão permanente, enquanto aqueles que não efetuarem o pagamento poderão aderir temporariamente, por um período limitado e sujeito a revisão. Esse modelo tem sido alvo de críticas por condicionar a participação diplomática à capacidade de pagamento e por centralizar o controle de bilhões de dólares em uma estrutura com liderança personalizada.
Países convidados e reações oficiais
Mais de 60 países foram convidados a integrar o Conselho da Paz. Entre eles, Argentina, Canadá, Cazaquistão, Turquia, Egito, Jordânia, Índia, Paquistão e outros atores regionais e potências emergentes. O presidente argentino, Javier Milei, confirmou publicamente o recebimento do convite, embora tenha esclarecido que nenhuma decisão foi tomada em relação a uma possível contribuição financeira. No Paraguai, o governo reconheceu o contato, mas negou qualquer compromisso financeiro.
As reações foram diversas. Alguns governos manifestaram interesse em analisar a proposta como um meio alternativo de resolução de conflitos, enquanto outros expressaram cautela devido ao alto custo de adesão e às implicações políticas de ingressar em uma organização liderada por Trump. Na Europa, diversos ministérios das Relações Exteriores alertaram sobre o impacto que essa estrutura poderia ter no equilíbrio do sistema multilateral existente.
O Conselho da Paz e sua possível composição
A estrutura interna do Conselho Global da Paz seria composta por um Conselho Executivo com figuras políticas e econômicas de alto perfil. Entre os nomes que surgiram estão o do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio; Jared Kushner, genro e ex-conselheiro-chave de Trump; o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair; e o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga. Essa composição reforça a percepção de uma organização com forte influência ocidental e laços estreitos com o círculo político do ex-presidente americano.
Essa possível composição levanta questões sobre a representatividade das regiões diretamente afetadas pelos conflitos, particularmente o Oriente Médio, bem como sobre a falta de mecanismos claros de responsabilização.
Gaza como eixo central e contrapeso da ONU
Embora o Conselho Global da Paz se apresente como uma organização global, seu foco inicial seria a Faixa de Gaza. Os fundos arrecadados por meio de contribuições dos países membros seriam destinados principalmente à reconstrução do território e à implementação de um plano de estabilização política e econômica após mais de dois anos de guerra. Na prática, a iniciativa se configura como um contrapeso direto à ONU, com suas próprias regras, financiamento garantido e uma cadeia de comando mais centralizada.
Para os defensores do projeto, esse modelo permitiria uma resposta mais rápida em situações de crise. Para os críticos, representa um risco de enfraquecer ainda mais o sistema multilateral e subordinar a paz internacional a interesses políticos e econômicos específicos.
Dados recentes sobre a guerra em Gaza
A guerra em Gaza deixou uma devastação humana e material sem precedentes na região. Desde o início do conflito, em outubro de 2023, até o final de 2025, estima-se que mais de 72.000 pessoas morreram, a maioria civis, e que cerca de 170.000 ficaram feridas, muitas com sequelas permanentes. Além disso, cerca de 11.000 pessoas permanecem desaparecidas, soterradas sob os escombros ou sem paradeiro conhecido.
O impacto demográfico foi profundo: a população de Gaza diminuiu em aproximadamente 250.000 pessoas, o equivalente a mais de 10% da população anterior à guerra. Em termos territoriais, mais de 90% da infraestrutura construída foi danificada ou destruída, incluindo casas, hospitais, escolas, universidades, estradas e redes de água e eletricidade. Estima-se que 44.000 hectares de terras agrícolas tenham se tornado inutilizáveis ou sofrido graves danos.
O colapso econômico é igualmente dramático. O Produto Interno Bruto (PIB) de Gaza contraiu mais de 80%, com o desemprego ultrapassando os 75% e uma paralisação quase total da atividade produtiva. As perdas econômicas diretas ultrapassam os 30 bilhões de dólares americanos, enquanto os custos da reconstrução completa podem levar décadas e exigir um investimento muito superior a esse valor.




