Um comitê secreto teria vendido serviços de saúde pública de forma fraudulenta.
SANTO DOMINGO – De acordo com a denúncia apresentada pela Procuradoria Especializada em Corrupção Administrativa (PEPCA), a corrupção no SeNaSa não se baseava apenas em contratos fraudulentos e subornos milionários, mas também na criação de estruturas paralelas e de umalinguagem interna que funcionava como ordens irrecorríveis.
Nas páginas 14 e 15 da denúncia, Santiago Marcelo Hazim Albainy, então diretor da ARS Senasa, teria criado um Comitê de Contratação Médica “ad hoc”, sem base legal ou regulamentar, composto por pessoas de seu círculo mais próximo, operando segundo a PEPCA, fora da Lei 340-06, favorecendo prestadores de serviços ligados política ou economicamente a Hazim.
Este “comitê” seria composto por Francisco Iván Minaya, Roberto Canaán, Gustavo Guilamo, Germán Robles e Carmen José Velázquez, cuja função seria concentrar as decisões em um pequeno grupo, favorecendo fornecedores ligados política ou economicamente ao diretor.
Segundo o processo, as assistentes Johana Fernández e Johanna Grullón chegavam com listas predeterminadas de fornecedores para aprovar, legitimando as decisões com frases como "isso é do CEO", "isso é da Olympus" ou "foi aprovado", como uma estratégia interna para obter uma resposta positiva.
A saúde como negócio e o impacto do dinheiro
O Ministério Público afirma nas páginas 11 e 12 que foram cobrados tratamentos excessivos a pacientes com câncer, que desnecessários e que foi feita hemodiálise em pessoas falecidas, ações que, segundo a acusação, violaram os direitos fundamentais dos membros mais vulneráveis da população.
A denúncia detalha nas páginas 9, 10 e 19 que faturas fictícias foram emitidas e dinheiro foi sacado para pagar supostos subornos. O empresário José Pablo Ortiz Giráldez teria dado a Hazim um Lincoln Navigator em junho de 2020, antes de sua nomeação oficial, usando a conta bancária de sua esposa para disfarçar a origem dos fundos, segundo a denúncia, na qual a Procuradoria Especializada em Corrupção Administrativa (PEPCA) afirma que Hazim já recebia benefícios antes de sua nomeação oficial.
O processo alega que ele justificou a contratação com frases como "ele contribuiu para a campanha" ou "temos que ajudá-lo", revelando ligações políticas e objetivos eleitorais.
O Ministério Público sustenta que Hazim e seu círculo formaram uma associação ilícita dentro do SeNaSa, substituindo critérios técnicos por favores políticos e econômicos envolvendo a quantia de RD$ 15,921 milhões.
A denúncia também lista pelo menos 13 empresas e centros de saúde que se beneficiaram do esquema, além da expressão "entre outros", indicando que a lista é mais extensa, incluindo muitos sem autorização ou infraestrutura, como: Servicios Médicos del Este, DELESTE SRL, Nutri Med Cas SRL, KHERSUM SRL, FARMACARD SRL, LUFARCA SRL, Escudela Centro de Vacunación Infantil SRL, Super Kiddos SRL, Inmunizaciones San Cristóbal, Vacu Este, VACUMED SRL, Grupo Suilrod SRL, Flavorheart Food Parts SRL, entre outros.
A acusação alega que esses prestadores de serviços foram aprovados por conveniência política e econômica, sem atender aos requisitos legais ou técnicos, criando assim um mapa de beneficiários da fraude.
As frases que teriam regido a fraude
Segundo a leitura do processo acusatório apresentado pela PEPCA, nas reuniões da Comissão de Contratação Médica, os participantes chegavam com listas predeterminadas de fornecedores que precisavam ser aprovados.
Bastava proferir frases como "isso veio do CEO", "isso veio da Olympus" ou "teve apoio" para legitimar a decisão.
Expressões que, segundo o Ministério Público, tinham o poder de substituir a lei por meras palavras. Em vez de procedimentos, relatórios técnicos ou avaliações, o código interno bastava para aprovar milhões de pesos em contratos, suplantando critérios técnicos e legais e tornando-se um código de poder que anulava qualquer resistência institucional.
Além dos milhões de dólares envolvidos, a acusação descreve como a corrupção se tornou uma cultura institucional, onde a linguagem interna funcionava como um selo de aprovação automática, substituindo a Lei 340-06 sobre Compras e Contratos e a Lei 87-01 sobre Seguridade Social, normalizando a fraude.
A linguagem interna não só facilitava a fraude, como também a normalizava: quem ouvia essas frases sabia que não havia espaço para questionamentos. O processo demonstra que esse mecanismo era tão eficaz quanto qualquer estrutura financeira: sem a necessidade de documentos falsificados, a linguagem por si só bastava para legitimar decisões ilícitas e manter a coesão dos funcionários.
Na seção “Características da rede criminosa criada para desviar fundos do Serviço Nacional de Saúde”, eles praticamente esgotaram o alfabeto espanhol, usando as letras de A a V para listar as supostas ações fraudulentas cometidas pelo grupo.
Até o momento, 10 pessoas foram presas no caso Cobra, liderado por Santiago Hazim Albainy, e o processo permanece aberto com mais pessoas sob investigação.
Os presos na Operação Cobra são Santiago Marcelo F. Hazim Albainy, ex-diretor da SeNaSa; Gustavo Enrique Messina Cruz; Germán Rafael Robles Quiñones; Francisco Iván Minaya Pérez; Eduardo Leia Estrella; Cinty Acosta Sención; Ramón Alan Palestrante Mateo; Ada Ledesma Ubiera; e Rafael Martínez Hazim.
Especificações técnicas do arquivo
– Data de submissão: setembro de 2025
– Entidade: Ministério Público – PEPCA
– Extensão do arquivo: 535 páginas
– Acusados: Santiago Marcelo Hazim Albainy e círculo de gestores, empresários e prestadores de serviços.




