“É mais barato implementar soluções específicas do que construir um sistema completo que transporte a água para um coletor ou para o mar.”
SANTO DOMINGO – O crescimento urbano na República Dominicana está progredindo rapidamente, mas nem sempre com planejamento. Nesse contexto, o engenheiro ambiental Raymond Martínez levantou um problema que, além da infraestrutura, impacta diretamente a forma como o país está sendo construído.
Durante sua participação no podcast La Ventana delel Inmobiliario, Martínez expôs uma realidade que define grande parte dos problemas atuais: o desenvolvimento urbano desorganizado e desconectado de soluções eficazes para o aproveitamento de águas pluviais.
Cidades que crescem, mas não respiram
“Obviamente, estamos deixando pegadas de concreto, mas com soluções inadequadas para o escoamento da água da chuva”, afirmou o especialista, descrevendo como muitas urbanizações priorizam a construção sem considerar o comportamento da água.
Ele explicou que um dos erros mais frequentes é a redução das áreas verdes em projetos de alta densidade. "Se você tem 60 prédios e a área verde é mínima, não é difícil perceber que estamos ocupando todo o espaço sem deixar nenhum lugar para a natureza", destacou.
Esse tipo de empreendimento, longe de ser um mero detalhe de planejamento urbano, tem consequências diretas: impede a infiltração natural da água e aumenta a quantidade de escoamento superficial que precisa ser gerenciada artificialmente.
Quando o solo para de absorver
Martínez explicou que o problema reside não apenas na quantidade de chuva, mas também na forma como o solo reage a ela. "A mesma quantidade de água que caiu nos últimos 100 anos continua caindo, mas agora o escoamento é maior", afirmou.
Isso ocorre, explicou ele, porque o solo foi transformado. "Convertemos o espaço verde natural em uma superfície impermeável que não permite a infiltração", acrescentou.
O resultado é um sistema alterado: a água não consegue mais filtrar ou evaporar como faria em condições naturais, então precisa se mover rapidamente, aumentando o risco de inundações.
Empreendimentos habitacionais construídos em terrenos vulneráveis
O especialista também apontou casos específicos em que a falta de análise técnica teve consequências visíveis. "Existem áreas com permeabilidade muito baixa, e mesmo assim foram construídos empreendimentos urbanos sem soluções adequadas", explicou.
Como exemplo, ele mencionou áreas de Santo Domingo e do interior onde o tipo de solo limita a capacidade de absorção, o que agrava o problema quando áreas naturais são substituídas por concreto. "Todo engenheiro que trabalhou nessas áreas sabe que são terrenos difíceis, mas mesmo assim a construção acontece", afirmou.
Nesses casos, a urbanização não apenas transforma o ambiente, mas também intensifica um problema que já existia.
A natureza como um sistema ignorado
Para Martínez, um dos maiores erros foi perturbar o equilíbrio natural do ciclo da água. “A natureza é muito sábia. Quando não há intervenção humana, a água segue seu curso: parte escoa, parte infiltra no solo e parte evapora”, explicou.
No entanto, esse equilíbrio se perdeu em muitas áreas urbanizadas. "Hoje temos conjuntos habitacionais sem árvores, sem áreas verdes, sem espaços que favoreçam esse processo natural", acrescentou.
A consequência é clara: um sistema que antes era autorregulado agora depende inteiramente de soluções artificiais que, em muitos casos, não são suficientes.
Soluções mal aplicadas e decisões baseadas em custos
O engenheiro também questionou as soluções que estão sendo implementadas em muitos projetos. "Tem havido uma forte ênfase em soluções como filtros, mas existem áreas onde elas simplesmente não funcionam", explicou.
Ele explicou que essas decisões muitas vezes respondem a critérios econômicos em vez de técnicos. "É mais barato implementar soluções isoladas do que construir um sistema completo que leve a água a um coletor ou ao mar", afirmou.
O problema, acrescentou, é que essas soluções acabam sendo insuficientes, especialmente em áreas onde a infiltração é limitada.
Repare o que já existe antes de construir mais
Em termos de soluções imediatas, Martínez delineou uma abordagem clara: aproveitar o que já existe. "A opção mais econômica é sair e reparar as estruturas existentes", afirmou.
Ele explicou que muitas infraestruturas poderiam funcionar adequadamente se recebessem manutenção apropriada. "Se sabemos que elas existem, precisamos analisá-las e colocá-las em operação", acrescentou.
Essa visão propõe uma abordagem prática para a urgência do problema, priorizando a recuperação dos sistemas em detrimento da construção de novos.
Investimento e planejamento de longo prazo
No entanto, o especialista deixou claro que as soluções estruturais exigem investimento. "Não há outro jeito; temos que encontrar o dinheiro e propor soluções reais", afirmou.
Para Martínez, isso implica um planejamento abrangente que não dependa apenas de decisões isoladas. "Precisamos desenvolver um plano sério nas cidades sobre como resolver os problemas de drenagem de águas pluviais", afirmou.
Nesse sentido, ele enfatizou que o país possui uma vantagem geográfica que nem sempre é aproveitada. “Somos um país cercado por litorais. Toda essa água pode ser gerenciada adequadamente se as estruturas apropriadas forem projetadas”, explicou.
Um apelo ao crescimento ordenado
O especialista também enfatizou a necessidade de regulamentações mais rigorosas para o desenvolvimento urbano. "Precisamos levar isso a sério, porque existem projetos que não estão cumprindo o que deveriam", afirmou.
Como ele explicou, em muitos casos a construção rápida é priorizada em detrimento do planejamento adequado, o que acaba gerando problemas a médio e longo prazo.
Leituras recomendadas:




