O CES alerta que a chave é garantir a soberania e a ordem migratória, sem negligenciar a capacidade produtiva dos setores que sustentam o emprego, o investimento e a segurança alimentar nacional.
SANTO DOMINGO – Não é segredo que os setores agrícola e da construção civil compartilham uma vulnerabilidade comum: a alta dependência da mão de obra haitiana . Segundo dados da Direção Geral de Migração, 250.741 haitianos em situação irregular foram deportados somente em 2025, ausências que reduziram parte da força de trabalho que esses setores necessitam urgentemente.
O Conselho Econômico e Social (CES), em seu relatório sobre o Diálogo para a Crise Haitiana, foi enfático ao sugerir que o país deveria se concentrar na elaboração de um quadro regulatório que combine segurança e ordem migratória, garantindo também a continuidade produtiva.
“O país deve regulamentar a participação de trabalhadores estrangeiros na construção civil e no agronegócio, garantindo, ao mesmo tempo, o cumprimento da lei e o respeito aos direitos humanos”, afirma o documento.
declínio da construção
O alerta surge num momento complexo, uma vez que o Banco Central informou que a construção cresceu apenas 2,2% em 2024 e que, no primeiro trimestre de 2025, caiu 3,1%, refletindo a desaceleração, atribuída em parte à pressão migratória resultante das deportações.
Esse volume de expulsões afeta diretamente a disponibilidade de mão de obra na construção civil, onde os trabalhadores haitianos desempenham um papel decisivo.
Para a CES, o desafio é duplo: garantir a soberania e a ordem migratória sem negligenciar o motor econômico representado pela construção civil e pelo el inmobiliario, base do investimento produtivo e da expansão do turismo.
O relatório do CES dedica uma seção especial à situação da construção civil, um setor que depende significativamente da mão de obra haitiana, sem invalidar a necessidade, o direito e o dever do país de rejeitar a imigração ilegal, mas alerta que isso deve ser acompanhado por uma política clara de regulamentação da mão de obra estrangeira em setores estratégicos.
“O país deve regulamentar a participação de trabalhadores estrangeiros na construção civil e no agronegócio, garantindo, ao mesmo tempo, o cumprimento da lei e o respeito aos direitos humanos”, afirma o CES.
Segurança alimentar em risco
No caso do setor agroindustrial, o CES alerta que uma política de deportações em massa sem regras claras pode afetar a produção e as exportações de alimentos. Em 2024, o setor agrícola registrou crescimento de 3,3%, segundo dados do Banco Central, e mantém um papel estratégico tanto para o consumo interno quanto para o comércio exterior.
Os dados do Banco Central mostram que, no primeiro semestre de 2025, a agricultura cresceu mais do que em 2024 (4,9% contra 4,3%), apesar da magnitude das deportações haitianas. Isso sugere que o impacto na produção agrícola e agroindustrial não foi imediato, provavelmente porque as deportações não afetaram diretamente as áreas rurais até o momento, ou porque a mão de obra foi rapidamente substituída em certas culturas, ou ainda porque o setor absorveu o impacto graças às boas colheitas e às condições favoráveis à exportação.
Até o momento, a agricultura tem se mantido estável, mas o CES alerta que isso não é sustentável a longo prazo sem regras claras para a mão de obra estrangeira . Embora os números mostrem dinamismo em 2025, o risco de um choque de produção é latente, com perspectivas de desaceleração do crescimento agrícola nos próximos trimestres, especialmente se a política migratória permanecer tão intensa e a força de trabalho não for regulamentada de forma ordenada.
O desafio, conclui o CES, é alcançar um equilíbrio: “Garantir a soberania e a ordem migratória, sem negligenciar a capacidade produtiva dos setores que sustentam o emprego, o investimento e a segurança alimentar nacional”.
Contexto
O Diálogo para a Crise Haitiana foi um processo multissetorial convocado pelo Conselho Econômico e Social (CES) a pedido do Presidente Luis Abinader, que reuniu durante vários meses representantes de partidos políticos, empresários, sindicatos, organizações sociais, acadêmicos e entidades da sociedade civil.
Seu objetivo central era construir um consenso nacional diante do impacto da crise haitiana na República Dominicana, abordando questões como migração, segurança de fronteiras, política externa, economia e direitos humanos, e culminou em um conjunto de propostas e acordos entregues ao Poder Executivo em setembro de 2025.




