Uma "cidade de 15 minutos" permite que os moradores atendam às suas necessidades organizadas em seis categorias: moradia, trabalho, compras, saúde, educação e entretenimento.
A crise causada pela pandemia do coronavírus intensificou o desejo de viver em vilas, bairros e pequenas cidades de "escala humana". Essa realidade trouxe de volta à tona o conceito de "cidade de 15 minutos", um modelo mais habitável e orientado para as pessoas, em vez dos carros.
A ideia é incentivar o retorno a um estilo de vida local, um modelo baseado em pequenas comunidades autossuficientes, onde os moradores da cidade têm acesso a todas as suas necessidades essenciais em 15 minutos a pé ou de bicicleta. Em outras palavras, melhorar a qualidade de vida por meio da hiperproximidade.
O conceito é baseado no trabalho realizado há mais de 100 anos pelo urbanista americano Clarence Perry, resgatado na década de 1960 por sua compatriota Jane Jacobs e redefinido pelo cientista franco-colombiano Carlos Moreno.
Esta proposta urbana foi adotada em maio de 2020 pelo C40 Cities Climate Leadership Group, um conglomerado de cidades de todo o mundo, incluindo Madri e Barcelona, que estão unindo forças para reduzir as emissões de carbono e se adaptar às mudanças climáticas. Foi a resposta delas não apenas à crise climática, mas também aos impactos urbanos da pandemia de COVID-19.
A "cidade de 15 minutos" baseia-se na visão de uma cidade policêntrica, uma estrutura descentralizada e setorizada que transcende o urbano para abranger o território, combinando desenvolvimento e cooperação competitiva nos níveis econômico, social e ambiental entre suas partes, tudo articulado por meio de redes de comunicação eficientes.
Menos poluição
Um estudo científico publicado em 2022 revelou que a poluição se espalha muito mais lentamente entre indivíduos em comunidades que seguem esse modelo, já que a maioria dos moradores não precisa passar pelos mesmos pontos críticos de poluição todos os dias. E a maioria nem sequer depende de transporte público, pois pode ir a pé ou de bicicleta para o trabalho, escola, posto de saúde local ou comércios da região.
Dessa forma, ao reduzir a necessidade de longas viagens, não só se diminui a circulação de vírus e a poluição, como também se fortalecem as comunidades e economias locais.
Este modelo também fortalece as relações de vizinhança, que os psicólogos consideram extremamente importantes em situações como a que ocorreu durante a pandemia, em que os seres humanos precisavam de cooperação e cuidado.
Uma "cidade de 15 minutos" permite que os moradores atendam às suas necessidades organizadas em seis categorias: moradia, trabalho, compras, saúde, educação e entretenimento.
Mas quais são os serviços essenciais que devem estar a menos de quinze minutos de todos os moradores? Por exemplo, o local de trabalho, o supermercado, o parque público, a escola, o consultório médico, o parque infantil.
Segundo Carlos Moreno, diretor científico da Cátedra de Território e Inovação da Universidade Sorbonne, em Paris, a cidade deve ser uma aliada, uma inspiração, e não um obstáculo para uma vida plena. Por isso, ele propõe melhorias no planejamento urbano que promovam comunidades mais saudáveis.
Em vez de cidades com bairros distintos para morar, socializar e trabalhar, como acontece atualmente na maioria das grandes cidades, o conceito de Moreno idealiza o centro urbano como uma tapeçaria de bairros.
Regeneração de bairros urbanos
Segundo o cientista, a mudança drástica para o trabalho remoto, acelerada pela pandemia, demonstrou que a "cidade de 15 minutos" não só é viável, como pode ser "crucial para a regeneração de bairros urbanos". Isso envolve a criação de bairros inteiros por meio da descentralização de serviços básicos e do desenvolvimento de uma mistura social e funcional.
“Existem muitos trabalhos que podem ser feitos remotamente. Deslocar-se por uma hora para ficar sentado em frente a um computador no escritório não faz muito sentido se você pode trabalhar em frente a um computador perto de casa. Estar perto de casa significa que podemos criar novos espaços”, destaca Moreno.
Outra de suas propostas é repensar como a infraestrutura existente pode ser melhor utilizada. “Em uma cidade como Paris, um prédio é usado apenas 30% ou 40% do tempo. Isso significa que, durante 60% ou 70% do dia, o prédio fica vazio com mais frequência do que em uso.” Ela defende a reutilização desses edifícios para abrigar atividades diferentes daquelas para as quais foram originalmente projetados.
Ele dá exemplos: prédios abandonados poderiam ser convertidos em espaços de coworking ou de trabalho colaborativo. Escolas poderiam abrir nos fins de semana para atividades culturais. Um ginásio esportivo durante o dia poderia se transformar em uma boate à noite. Cafés poderiam oferecer aulas de idiomas à tarde, e prédios públicos poderiam sediar shows nos fins de semana.
O plano da "cidade de 15 minutos" envolve a descentralização dos serviços e a reorganização das ruas. Essa mudança de paradigma significa deixar de priorizar 100% os carros e passar a priorizar pedestres e ciclistas.
Em outras palavras, o projeto deve ser centrado na compreensão das necessidades e desejos daqueles que habitam os espaços. Ou seja, devolver as ruas às pessoas e fomentar a conexão humana.
Cidades que adotaram o modelo
Paris, sob a administração de Anne Hidalgo e com a orientação de Carlos Moreno, foi uma das primeiras cidades a implementar um plano para fomentar o desenvolvimento de comunidades mais autossuficientes. A "Cidade de Quinze Dias" visa transformar a metrópole em bairros eficientes, com o objetivo de reduzir a poluição e criar áreas vibrantes e dinâmicas.
Copenhague também seguiu esse caminho: há muito tempo colocou as bicicletas no centro da mobilidade urbana.
Portland adotou um plano inovador de ação climática no final da década de 2000: os bairros de 20 minutos. A meta é que 90% dos moradores consigam suprir suas necessidades básicas a pé ou de bicicleta dentro desse período até 2030.
Melbourne lançou um programa de reforma de alvarás de construção para apoiar a diversidade habitacional, o financiamento de instalações de arte pública, espaços recreativos e a revitalização de ruas centrais.
Xangai e Guangzhou, na China, já possuem bairros chamados de "círculos de vida comunitária de 15 minutos", nos quais seus habitantes podem satisfazer, no máximo, todas as suas necessidades básicas nesse período de tempo.
Barcelona está empenhada em um sistema de "superblocos" ou "superquadras" que modifica as redes viárias em blocos de 400x400 metros para melhorar a disponibilidade e a qualidade do espaço público para atividades de lazer e comunitárias, bem como para pedestres e ciclistas.
Críticas: “O modelo levará ao tribalismo”
Mas também existem críticos do conceito de "cidade de 15 minutos" que preveem que ele levará ao tribalismo e exacerbará as disparidades urbanas existentes entre os bairros.
A resposta de Moreno é que as cidades já são muito desiguais hoje em dia: “Elas são muito fragmentadas, muito segregadas. Empurramos muitas pessoas para os subúrbios, onde os preços dos imóveis são mais baixos. E dizemos a elas: ‘Peguem o trem, pode levar uma hora para chegar ao trabalho, e vocês podem agradecer por terem um emprego, porque o mundo pertence àqueles que acordam cedo’”.
“Não podemos continuar construindo cada vez mais longe, erguendo três ou quatro novas estações de trem e dizendo às pessoas 'vocês têm a opção de vir'”, argumenta Moreno, afirmando que a “cidade de 15 minutos” irá, em vez disso, promover a coesão social, reduzir a desigualdade e melhorar a qualidade de vida em bairros desfavorecidos.
Foto da capa: Planos futuros para a Champs-Élysées em Paris. / PCA_STREAM.




