SANTO DOMINGO - "O trágico acidente ocorrido na tarde de sábado no cruzamento da Avenida 27 de Febrero com a Rua Máximo Gómez, que deixou 9 mortos, reflete inexoravelmente uma falha de projeto, que infelizmente foi apontada há mais de 25 anos por diversos engenheiros sem qualquer resposta das autoridades", declarou ontem Luis Adolfo Abbott Zorrilla, consultor e projetista de estruturas.
O professor explicou ainda, através de sua rede social Instagram, que, devido à coesão presente na rocha calcária típica do local da falha, a parede não apresentou empuxos significativos do solo e que os empuxos da água foram ignorados, contando-se com um sistema de drenagem muito deficiente, calculado para baixas precipitações em milímetros.
“Consequentemente, foi projetada como uma tela sem qualquer capacidade lateral e, portanto, não possuía a resistência necessária para transmitir a demanda do empuxo da água da chuva a que foi submetida”, disse ele.

Fonte: Labbottz_structures.
A proposta do profissional complementa a recomendação feita pelo Colégio Dominicano de Engenheiros, Arquitetos e Topógrafos (CODIA), em 1999, quando um evento semelhante ocorreu naquele local, que aconselhou na época a demolição da estrutura, porque "ela estava erodida na base pelas águas".
As recomendações da época foram feitas após uma avaliação conduzida por uma comissão composta pelos engenheiros civis Luis Carpio Montás, especialista em mecânica dos solos; Alexander Holsteinson, engenheiro estrutural; Héctor Rodríguez Morillo, especialista em hidrologia; José Bautista Perdomo, ambientalista; José M. Aybar, engenheiro sanitário; Antonio Cocco Quezada, meteorologista; Osiris de León, engenheiro geológico; e Erwin Cott Crews, arquiteto.
Em suas considerações, a comissão de avaliação estimou que a solução dada pelas autoridades para o problema “não é a mais adequada e eficaz” e considerou necessário substituir completamente o muro afetado para garantir aos cidadãos uma travessia sem riscos.
Vinte e quatro anos depois, as previsões se concretizaram, deixando um saldo de 9 vítimas fatais no engarrafamento mencionado, em um momento em que a capital dominicana registrava chuvas torrenciais, que derrubaram parte do viaduto e cujas lajes atingiram diversos veículos, resultando no lamentável número de vítimas.
O arquiteto Ernesto Contreras afirmou que o desabamento já havia ocorrido durante a gestão do engenheiro Jimmy Durán, em 1996, que iniciou o projeto. Durán foi posteriormente substituído por Diandino Peña, e foi durante a gestão de Peña que essas mesmas paredes desabaram, ou melhor, inclinaram-se devido aos efeitos das chuvas. "Eles escoraram, reforçaram e reposicionaram a parede", disse ele.
"A causa foi claramente a fragilidade dos estudos pré-investimento do projeto e do perfil da Extensão Miraflores, o entorno imediato do empreendimento. Especificamente, os estudos geotécnicos, topográficos e hidrológicos da área; ou seja, desde o comportamento, geometria e consistência dos solos, até suas declividades ou curvas de nível e a drenagem pluvial da área, onde boa parte dessa drenagem de sarjetas e ruas é direcionada para a Avenida 27 de Febrero, cuja inclinação acentuada aponta para a Rua Máximo Gómez", explicou ele.
O arquiteto acrescentou que "essas fragilidades nos estudos, no planejamento do local e no projeto desta complexa obra viária, bem como no sistema de drenagem pluvial, continuam a ter um impacto negativo na vida das pessoas e no patrimônio público. A água da área acumulou-se novamente no mesmo ponto, inundando o espaço entre a borda dos muros e o pavimento até penetrar no solo que, embora composto principalmente de calcário metamórfico, exerceu pressão lateral que enfraqueceu as fundações e a capacidade de contenção do muro, apresentando-nos, mais uma vez, um 'déjà vu' em termos de políticas públicas.".
Um arquiteto entre as vítimas
Uma das nove vítimas do desabamento no viaduto da Avenida 27 de Febrero e Máximo Gómez estava casada havia menos de dois meses e planejava se mudar para a França. Tratava-se da arquiteta Solange María Méndez, de 31 anos, que foi esmagada junto com seu pai, Omar Alejandro Méndez, em um dos veículos que trafegavam pelo local.
O metrô estende seu horário de funcionamento
A partir desta segunda-feira, o horário de funcionamento do Metrô de Santo Domingo e do Escritório Metropolitano de Serviços de Ônibus (OMSA) será estendido enquanto as obras de intervenção estiverem em andamento no viaduto mencionado.
O metrô de Santo Domingo funcionará das 6h à meia-noite, enquanto a OMSA prestará serviços das 6h às 23h.
Três dias de luto nacional
O presidente Luis Abinader emitiu ontem, domingo, o decreto 586-23, declarando três dias de luto oficial pelas mortes causadas pelas enchentes no país, que até o momento, extraoficialmente, chegam a 30.
Os dias oficiais de luto são 20, 21 e 22 de novembro deste ano.
“São declarados três dias de luto oficial em todo o território da República Dominicana, a partir da data deste decreto, correspondendo, portanto, aos dias 20, 21 e 22 de novembro deste ano, em virtude das fatalidades resultantes da passagem do recente fenômeno atmosférico pelo país”, diz o Artigo 1º do decreto presidencial.




