O relatório indica que a frequência de eventos climáticos extremos praticamente dobrou nas últimas décadas, passando de uma média de 5,2 eventos por ano entre 1960 e 1990 para 10,7 entre 2000 e 2023
SANTO DOMINGO – A América Latina e o Caribe continuam sendo a região em desenvolvimento mais democrática do mundo. No entanto, a confiança pública nas instituições enfrenta desafios crescentes em um contexto marcado pela insegurança, polarização política, desinformação digital e os efeitos cada vez mais visíveis das mudanças climáticas.
Essa é uma das principais conclusões do relatório regional “Democracias sob pressão: Reimaginando os futuros da democracia e do desenvolvimento na América Latina e no Caribe”, apresentado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na República Dominicana durante um evento liderado pelo presidente Luis Abinader e pela diretora regional da organização para a América Latina e o Caribe, Michelle Muschett.
Segundo o estudo, embora a democracia continue sendo o sistema de governo preferido pela maioria da população, existe uma lacuna crescente entre o apoio dos cidadãos ao modelo democrático e a satisfação com os resultados oferecidos pelas instituições.
O caso do Caribe
O relatório dedica uma análise especial ao Caribe, uma sub-região que, segundo o PNUD, mantém níveis relativamente altos de coesão social e estabilidade democrática em comparação com outras áreas da América Latina.
No entanto, alerta que enfrenta pressões crescentes ligadas ao crime organizado, à vulnerabilidade econômica e a eventos climáticos extremos.
Entre os dados citados pela organização, consta que a taxa de homicídios no Caribe chega a 27,9 casos por 100 mil habitantes, acima da média regional, sendo que 59% desses eventos estariam relacionados a estruturas do crime organizado.
Essa situação é agravada pela crescente exposição a eventos climáticos extremos. O relatório observa que a frequência de eventos climáticos extremos praticamente dobrou nas últimas décadas, passando de uma média de 5,2 eventos por ano entre 1960 e 1990 para 10,7 entre 2000 e 2023.
Apesar desse cenário, 57% dos cidadãos caribenhos continuam a considerar a democracia a melhor forma de governo. No entanto, apenas cerca de 32% afirmam estar satisfeitos com o seu funcionamento, de acordo com a análise.
República Dominicana, entre a América Latina e o Caribe
O PNUD identificou o país como um caso especial na região devido ao seu estatuto de ponte entre a América Latina e o Caribe.
A organização destacou que a República Dominicana compartilha características institucionais e políticas típicas da América Latina, mas, ao mesmo tempo, enfrenta vulnerabilidades semelhantes às de pequenos estados insulares do Caribe, especialmente em questões climáticas.
Durante a apresentação do relatório, o presidente Luis Abinader afirmou que um dos fatores que contribuíram para a estabilidade democrática da República Dominicana foi a capacidade de construir um consenso nacional que transcenda as diferenças partidárias.
O estudo também reconhece o progresso do país em áreas como democracia eleitoral, liberdades políticas e redução da pobreza e da desigualdade nas últimas duas décadas, embora observe que ainda persistem desafios relacionados à inclusão e à participação política das mulheres.
Desinformação e inteligência artificial
Outro tema abordado no relatório é o impacto da transformação digital nas democracias da região.
De acordo com os dados apresentados, 76% da população acredita que as redes sociais contêm uma quantidade significativa ou moderada de desinformação, um fenômeno que, segundo a organização, está alterando a forma como as pessoas acessam informações e participam da vida pública.
Apesar desses riscos, o relatório argumenta que tecnologias como a inteligência artificial também representam oportunidades para ampliar o acesso a serviços, fortalecer a participação cidadã e melhorar a produtividade das economias.
Um apelo à renovação da democracia
A diretora regional do PNUD, Michelle Muschett, afirmou que o principal desafio para os países da América Latina e do Caribe será transformar as pressões que as democracias enfrentam hoje em oportunidades de transformação.
“O futuro da América Latina e do Caribe depende da nossa capacidade coletiva de transformar as pressões que nossas democracias em desenvolvimento enfrentam, sem sacrificar a capacidade de ação das pessoas ou suas liberdades”, disse ele.
O relatório conclui que a força das democracias da região dependerá cada vez mais da capacidade dos Estados de responder às demandas dos cidadãos, fortalecer suas instituições e traduzir o crescimento econômico em melhorias concretas na qualidade de vida da população.
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