SANTO DOMINGO – Num país onde os setores da construção, do turismo e el inmobiliario são pilares da economia, os profissionais que sustentam essas áreas vivem sob pressão constante: prazos apertados, clientes exigentes, épocas de pico implacáveis e concorrência crescente.
Nesse contexto, o descanso é frequentemente considerado um luxo, "perdido" que gera culpa. Mas cada vez mais especialistas alertam que essa mentalidade pode prejudicar a saúde e, consequentemente, a qualidade e a produtividade do trabalho.
O descanso é visto como uma perda de tempo.
A mentalidade de "nunca parar" tornou-se parte da cultura de trabalho. Aqueles que constroem infraestrutura, administram propriedades ou atendem turistas sentem que, se descansarem, estão ficando para trás. No entanto, essa percepção contradiz o que a ciência e os profissionais de saúde mental afirmam: o descanso não é um luxo, mas sim uma necessidade biológica e psicológica.
O psicólogo clínico Luis Vergés alertou, em entrevista, que “a falta de sono e descanso altera a saúde mental e o comportamento humano… afeta a conduta, a concentração e a memória”. Sua observação encontra forte ressonância em nossos setores, onde a análise, a criatividade e a capacidade de tomar decisões rápidas são essenciais.
Um país estressado:
o esgotamento profissional não é um problema pequeno. De acordo com a Sociedade Dominicana de Psiquiatria, cerca de 20% da população dominicana sofre de algum tipo de transtorno mental, incluindo ansiedade e insônia. E, segundo um relatório global da Gallup (2024), mais de 50% dos dominicanos afirmam conviver com estresse diário, colocando o país acima da média regional.
O psiquiatra e psicoterapeuta José Miguel Gómez enfatizou que “uma em cada quatro pessoas precisará de ajuda em saúde mental em algum momento da vida”. Em declarações recentes, ele também destacou que menos de 1% do orçamento nacional de saúde pública é destinado à saúde mental, quando o valor adequado deveria estar entre 3% e 4% para lidar com a magnitude do problema.
A falta de recursos é evidente: existem apenas 240 psiquiatras em todo o país para mais de 11 milhões de habitantes, e o sistema público emprega apenas 467 psicólogos para atender à demanda nacional. Segundo Gómez, esses números refletem um déficit estrutural que deixa muitos trabalhadores sem acesso a apoio profissional oportuno.
Impacto nos Setores Produtivos
A falta de descanso não afeta apenas o indivíduo, mas também impacta diretamente a economia. Na construção civil, pode se traduzir em erros na obra, acidentes e estouros de orçamento devido a retrabalho. No turismo, resulta em atendimento menos personalizado e equipes exaustas durante a alta temporada. E no el inmobiliario, leva a decisões precipitadas, dificuldade de concentração e redução da capacidade de negociação.
Paradoxalmente, a "culpa de descansar" acaba gerando perdas de produtividade e qualidade do serviço, exatamente o oposto do que se busca ao fazer sacrifícios.
Estratégias para Descansar Sem Culpa
Embora as estatísticas possam parecer desanimadoras, existem medidas práticas que os profissionais podem tomar para se reconciliarem com o descanso:
Programe pausas obrigatórias: Seja em canteiros de obras, em serviços turísticos ou durante negociações, estabeleça pequenas pausas como parte da sua rotina, tão importantes quanto uma reunião com um cliente.
Descanso ativo e passivo: Não se trata apenas de dormir. Atividades como caminhar, ler, praticar hobbies ou simplesmente desconectar-se do celular ajudam a restaurar a mente.
Higiene do sono: Estabeleça rotinas regulares, evite telas antes de dormir e crie ambientes adequados para o descanso.
Redefina a produtividade: Entenda que trabalhar mais horas nem sempre significa produzir mais. Uma equipe bem descansada é mais eficiente, criativa e comete menos erros.
Permita-se desfrutar sem culpa: Veja o tempo livre como um investimento em energia e bem-estar, não como um desperdício de tempo.
Um chamado à ação pessoal:
Embora o sistema de saúde na República Dominicana enfrente limitações, os profissionais podem começar a fazer mudanças individuais em sua relação com o descanso. Reconhecer que fazer uma pausa não é sinal de fraqueza, mas sim uma estratégia de longo prazo, pode fazer toda a diferença entre o esgotamento profissional e a sustentabilidade no trabalho.
Nas palavras de Luis Vergés, o repouso não é simplesmente “dormir por dormir”, mas sim dar ao cérebro e ao corpo o espaço necessário para se regenerarem. E, como nos lembra José Miguel Gómez, o desafio do país é reconhecer que a saúde mental deve ocupar um lugar central nas políticas públicas.
Até que isso aconteça, a decisão cabe a cada um: ousar descansar sem culpa, sabendo que nesse gesto, como no cimento e nos tijolos, também se constrói o alicerce de um futuro mais sólido.




