O especialista afirma que os dados do Censo de 2022 permitem compreender os padrões de exposição das habitações, mas não determinar como as casas dominicanas reagirão a um evento extremo
SANTO DOMINGO - Embora mais de 82% das casas ocupadas na República Dominicana tenham paredes de blocos ou concreto, isso não significa necessariamente que o país esteja preparado para um grande terremoto.
Isso foi explicado pela engenheira Ashley Morales-Cartagena, vice-presidente do Instituto de Pesquisa em Engenharia Sísmica dos Estados Unidos (EERI), que alertou que o Censo de 2022 não deve ser interpretado como um diagnóstico de resiliência estrutural.
“A primeira coisa que precisamos deixar clara é que o Censo de 2022 não mede a resiliência sísmica nem a vulnerabilidade estrutural”, afirmou o especialista em entrevista ao El Inmobiliario.
Conforme explicou, os dados do censo permitem identificar padrões relativos aos materiais predominantes, à densidade populacional e à exposição territorial, mas não a forma como os edifícios irão reagir a um evento sísmico ou climático extremo.
O material não garante segurança
Morales-Cartagena indicou que existe frequentemente a percepção de que uma casa construída em concreto é automaticamente segura, quando na realidade o comportamento estrutural depende de múltiplos fatores.
“O material, por si só, não determina como uma casa reagirá a um terremoto”, disse ele.
O especialista explicou que aspectos como o cumprimento das normas, a qualidade da construção, a supervisão técnica e o projeto estrutural são fundamentais para avaliar o nível real de vulnerabilidade.
A isso se soma uma realidade comum no país: casas que foram crescendo progressivamente com anexos, novos andares ou mudanças de uso realizadas sem a devida supervisão técnica .
“Isso pode modificar o comportamento esperado da estrutura sob cargas sísmicas”, alertou ele.
Uma vulnerabilidade que muda dependendo da ameaça
O engenheiro argumentou que o país enfrenta uma realidade de "múltiplas ameaças", onde a mesma característica construtiva pode representar vantagens diante de um risco e fraquezas diante de outro.
Como exemplo, ele citou os dados do Censo de 2022, que indicam que 47,5% das casas na República Dominicana têm telhados de zinco, percentual que chega a 72% nas áreas rurais.
Do ponto de vista sísmico, explicou ele, um telhado leve pode reduzir parcialmente a carga da estrutura. No entanto, diante de furacões e ventos extremos, esses telhados podem se tornar um dos elementos mais vulneráveis, especialmente quando não possuem sistemas de ancoragem adequados.
“Não se trata apenas de saber se uma casa pode resistir aos ventos de um furacão, mas também do que acontece quando o sistema de drenagem pluvial falha e uma comunidade inteira acaba inundada”, disse ele.
Risco não é o mesmo que ameaça
Morales-Cartagena destacou a importância de diferenciar conceitos que são frequentemente confundidos no discurso público: ameaça, vulnerabilidade e risco.
Ele explicou que a ameaça está relacionada à probabilidade de ocorrência de um fenômeno natural, enquanto a vulnerabilidade depende das características dos edifícios e de quão preparados eles estão para responder a esse evento.
Na República Dominicana, disse ele, existem áreas com risco sísmico significativo associado a falhas ativas, especialmente no norte do país e em partes da região sul. No entanto, o risco aumenta quando essa ameaça coincide com construções informais, crescimento urbano desorganizado e falta de supervisão técnica.
“O Censo de 2022 permite-nos identificar alguns padrões territoriais relevantes, mas para falar de vulnerabilidade estrutural, são necessárias avaliações especializadas”, salientou.
O país ainda não possui um diagnóstico abrangente
O especialista explicou que atualmente existem informações técnicas relevantes sobre riscos sísmicos, inundações e deslizamentos de terra na República Dominicana, embora ainda estejam fragmentadas e com cobertura parcial.
Ele indicou que instituições como o Serviço Geológico Nacional desenvolveram estudos de microzonificação sísmica em cidades como Santo Domingo e Santiago, enquanto o Escritório Nacional de Avaliação Sísmica e Vulnerabilidade de Infraestruturas e Edificações (ONESVIE) realizou avaliações em escolas, hospitais e edifícios essenciais.
No entanto, ele acredita que o país ainda precisa de modelos mais abrangentes que combinem informações censitárias, estudos técnicos, imagens de satélite e pesquisas de campo para obter diagnósticos de risco mais completos.
“O Censo não substitui as avaliações técnicas especializadas, mas fornece uma base fundamental para a compreensão da exposição e para apoiar estudos de risco mais abrangentes”, afirmou.
Reforçar, reconstruir ou realocar?
Em relação às possíveis soluções para habitações vulneráveis, Morales-Cartagena afirmou que não existe uma resposta única e que cada caso requer avaliação técnica e análise de viabilidade econômica.
Ele explicou que alguns edifícios podem se beneficiar de reforços direcionados, enquanto outros exigem reconstrução devido à deterioração estrutural ou modificações acumuladas ao longo do tempo.
Ele também salientou que existem situações em que o principal problema não é a casa em si, mas o local onde ela foi construída.
“Existem áreas propensas a inundações, margens de rios ou encostas instáveis onde a realocação pode ser a única solução sustentável a longo prazo”, disse ele.
De acordo com o especialista, o principal desafio do país não é apenas construir mais moradias, mas também compreender melhor os riscos existentes e se preparar para cenários climáticos e sísmicos cada vez mais complexos.
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