Na República Dominicana, a herança é regulamentada por diferentes órgãos legais, cada um responsável por uma etapa específica do processo sucessório, desde a determinação dos herdeiros até a tributação e o registro de bens.
SANTO DOMINGO – O sistema de herança dominicano funciona como um sistema estratificado, em que cada regra aborda um aspecto diferente do processo.
Por um lado, o Código Civil define a essência da lei: quem herda, quando se inicia a sucessão e como os bens são distribuídos.
Existem ainda as leis tributárias e de registro, que regulamentam as consequências fiscais e os atos necessários para formalizar a transferência de ativos.
O Código Civil, em suas disposições sobre sucessões, estabelece os princípios essenciais: abertura da sucessão (art. 718), ordem legal dos herdeiros na sucessão legítima (arts. 723 e 731), capacidade para suceder, aceitação ou renúncia da herança e limites à liberdade de fazer testamento por meio da reserva hereditária.
Essas regras determinam a estrutura jurídica da herança, independentemente do tipo de bens envolvidos.
Em paralelo, a Lei nº 2569, sobre Sucessões e Doações, introduz a componente fiscal, estabelecendo que todas as sucessões devem ser declaradas perante a DGII e sujeitando a transmissão de bens a um imposto, com taxas, isenções e prazos específicos.
Embora sua finalidade esteja relacionada a questões fiscais, na prática ela condiciona o desenvolvimento da sucessão, uma vez que sem seu cumprimento não é possível avançar rumo à regularização dos bens.
No que diz respeito a bens imóveis, aplica-se a Lei nº 108-05 sobre o Registo de Imóveis, que exige procedimentos formais para o registo de bens herdados em nome dos herdeiros. Esta lei não define os direitos de herança, mas estabelece os requisitos para que a transferência seja válida perante terceiros.
| Quadro regulatório: herança e regras aplicáveis |
| Regra O que regula Código Civil (1884) Abertura da sucessão (art. 718), ordem legal dos herdeiros (arts. 723 e 731), sucessão legítima e testamentária, reserva hereditária Lei nº 2569 sobre Sucessões e Doações Imposto sobre heranças, prazos de declaração e obrigações fiscais Lei nº 108-05 sobre Registro de Imóveis Registro e formalização da transferência de imóveis herdados Regulamentos notariais e processuais Inventários, partilha de bens e atos de adjudicação |
Este sistema permite o funcionamento da herança, mas também explica por que o processo é frequentemente percebido como complexo. A discussão sobre uma possível lei abrangente de herança permanece em aberto, embora até agora o debate tenha se concentrado mais nos aspectos tributários do que nos civis.
O debate
Embora esse quadro legal permita a transferência de ativos, diversos setores do direito têm apontado que a dispersão regulatória cria lacunas de interpretação, especialmente diante de realidades contemporâneas como uniões estáveis, planejamento sucessório e a crescente complexidade dos ativos imobiliários.
Até o momento, não há nenhum projeto de lei no Congresso Nacional que proponha uma reforma abrangente da lei de heranças, e as discussões mais visíveis têm se concentrado no componente fiscal, e não na atualização do regime de heranças civis.
E isso nos leva ao debate fundamental sobre a necessidade de uma legislação moderna que unifique as regras, simplifique os procedimentos e proporcione maior segurança jurídica.
Para o setor imobiliário, esse contexto não é insignificante, visto que a herança continua sendo uma das principais formas de transferência de propriedade no país e sua regulamentação adequada afeta diretamente a formalização, o mercado e a segurança jurídica dos ativos.
O impacto jurídico e econômico de uma herança será o tema da próxima edição.




