A Procuradoria-Geral da República (PGR) ordenou uma investigação sobre possível fraude imobiliária em 134 áreas protegidas, devido a suspeitas de redes criminosas, corrupção administrativa, falsificação de documentos e irregularidades de cadastro.
SANTO DOMINGO – A Procuradora-Geral da República Dominicana, Yeni Berenice Reynoso, mudou o foco da persecução penal de crimes ambientais, ordenando uma ampla investigação criminal sobre a emissão de títulos de propriedade e possível fraude imobiliária em áreas protegidas, em um contexto marcado por uma recente decisão do Tribunal Administrativo Superior que impacta o Parque Nacional Jaragua.
A decisão da TSA ordena ao Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais que atualize o cadastro oficial de terras do parque, o que pode envolver a modificação dos limites administrativos dos terrenos localizados na área costeira.
A diretiva do Ministério Público instrui os procuradores especializados a investigar não apenas as ocupações físicas, mas também os atos legais, administrativos e de registro que resultaram na emissão de títulos no âmbito do Sistema Nacional de Áreas Protegidas (SINAP), que abrange 134 áreas sob proteção estatal.
As áreas designadas incluem o Parque Nacional Jaragua, o Parque Nacional Valle Nuevo, as Dunas de Baní, o Parque Nacional Sierra de Bahoruco e Hoyo del Pino, bem como a área de Bucanyé.
A Quinta Câmara do Tribunal de Justiça da Turquia proferiu sentença nº 0030-1643-2025-SSEN-00786, acolhendo ação de tutela instaurada por particulares, relativa a terrenos situados no perímetro do Parque Nacional Jaragua.
Uma reviravolta inesperada
Nesse cenário, a Procuradoria-Geral da República ordenou a criação de uma força-tarefa especializada para investigar possíveis redes criminosas, corrupção administrativa, falsificação de documentos ou irregularidades de registro que possam ter facilitado a titulação de terras dentro de parques nacionais e outras categorias protegidas, que também são territórios estratégicos para a segurança hídrica e a conservação da biodiversidade.
Segundo o comunicado oficial da Procuradoria-Geral da República, a mudança de foco consiste em tratar os crimes ambientais com o mesmo rigor que o crime organizado, devido ao seu impacto estrutural e, muitas vezes, irreversível.
O momento da decisão da TSA e da ordem de investigação criminal coloca o debate ambiental no centro da agenda institucional, num momento em que se discute o alcance da proteção legal sobre um dos maiores e mais ecologicamente sensíveis parques nacionais do país, e que é foco de investimentos turísticos e imobiliários.
Força-tarefa especializada
Para conduzir o processo, foi designada uma força-tarefa, coordenada pelo Procurador-Geral Adjunto Wilson Camacho, chefe da Direção-Geral de Acusação do Ministério Público, acompanhado por uma equipe composta pela Procuradora Mirna Ortiz, da Procuradoria Especializada em Corrupção Administrativa; e por Francisco Contreras, da Procuradoria Especializada em Defesa do Meio Ambiente e Recursos Naturais.
Também fazem parte da equipe Ramona Nova, da Procuradoria Especializada em Lavagem de Dinheiro e Financiamento do Terrorismo; Ana Burgos, chefe da Unidade de Investigação Imobiliária; e Gedeón Platón Bautista Liriano, Procurador do Estado perante a Jurisdição Imobiliária do Departamento Central.
Âmbito da investigação
Os procuradores serão responsáveis por determinar se redes criminosas, atos de corrupção, falsificação de documentos ou irregularidades facilitaram o desvio de recursos naturais públicos. Também deverão elaborar um relatório detalhado sobre a situação jurídica e o impacto dos crimes ambientais nas áreas que compõem o Sistema Nacional de Áreas Protegidas (SINAP), em coordenação com o Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais.
Segundo o comunicado oficial, a conservação dessas áreas é estratégica para a proteção das fontes de água e para a garantia dos serviços ambientais que sustentam as atividades produtivas e o abastecimento de água potável no país.
Contexto acumulado
Entre as áreas sob escrutínio estão o Parque Nacional Jaragua, o Parque Nacional Valle Nuevo, as Dunas de Baní e a Serra de Bahoruco, todas com histórico de conflitos devido a ocupações, agricultura ilegal ou projetos imobiliários questionáveis, segundo relatórios públicos e decisões administrativas do Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais registradas desde os anos 2000, após a entrada em vigor da Lei Setorial de Áreas Protegidas 202-04:
* Em Valle Nuevo, as autoridades vêm realizando operações de limpeza de plantações agrícolas em sua zona central há mais de duas décadas.
* Jaragua mantém disputas territoriais anteriores à promulgação da Lei Setorial de Áreas Protegidas 202-04, particularmente em áreas costeiras.
* As Dunas de Baní enfrentam ocupações e disputas de uso da terra desde a década de 1990.
* A Sierra de Bahoruco tem historicamente vivenciado conflitos relacionados à exploração madeireira, à agricultura e aos assentamentos humanos dentro de áreas protegidas.
Controvérsias também surgiram em relação à demarcação e certificação de terras em áreas ambientalmente protegidas, gerando debates públicos e questionamentos sobre possíveis deficiências no registro e nos controles administrativos.
É nesse contexto que a Procuradora-Geral Yeni Berenice Reynoso ordenou uma investigação abrangente que vai além das ocupações físicas e do Parque Nacional Jaragua, abrangendo também os atos legais e administrativos que possam ter legitimado a apropriação de recursos naturais públicos.
Reações e perguntas
O Ministério do Meio Ambiente rejeitou a decisão da TSA e anunciou uma ação judicial, argumentando que os limites de um parque nacional são definidos por lei, incluindo a Lei 64-00 e a Lei Setorial de Áreas Protegidas 202-04, e por disposições constitucionais que estabelecem seu caráter de interesse público, de modo que qualquer modificação exigiria intervenção legislativa.
Francisco Domínguez Brito, ex-ministro do Meio Ambiente e ex-procurador-geral, interveio no debate público, alertando que a decisão judicial poderia criar um precedente que enfraqueceria a integridade do regime de áreas protegidas.
Os ambientalistas Luis Carvajal e Yolanda León, membros da Coalizão para a Defesa de Áreas Protegidas, também se manifestaram, argumentando que a decisão introduz incerteza jurídica em territórios que a Constituição declara serem de elevado interesse público.
Parque Nacional Jaragua
Este parque, localizado na província de Pedernales, faz parte da Reserva da Biosfera Jaragua-Bahoruco-Enriquillo e abrange mais de 1.300 quilômetros quadrados, incluindo áreas terrestres e marinhas, bem como extensas faixas de praia de alto valor ecológico, incluindo a cobiçada Bahía de las Águilas.
Qualquer alteração de seus limites impacta o território terrestre, o litoral e as zonas de amortecimento ambiental.
A decisão da TSA ordena uma revisão do mapeamento oficial da área protegida, com base nas alegações da Inversiones del Sur, SRL, que invoca direitos adquiridos sobre terras supostamente tituladas anteriormente, originalmente incluídas no Parque Nacional Jaragua, que deveriam ter sido excluídas da área protegida porque, após a vigência da Lei 266-04, essas mesmas terras foram classificadas como Polo Turístico.
Na opinião deles, o Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais não atualizou o Cadastro Nacional de Áreas Protegidas para refletir essa mudança legal, e por esse motivo eles entraram com a ação de amparo.
Leituras recomendadas:




